Cuidado: spoilers à frente.
‘Only Murders in the Building’ tem uma capacidade incrível e notável de sempre se reinventar sem destoar muito do que nos entregou em sua estreia: ainda que com todas as chances de repetir tropos e métodos de reviravoltas costumeiras de histórias de mistério e comédia, Steve Martin e John Hoffman têm uma habilidade invejável de trazer elementos inéditos e manter os espectadores vidrados do começo ao fim através de pequenas joias audiovisuais. E, mantendo o altíssimo nível da temporada atual, o sexto capítulo é um lembrete de que, às vezes, o suprassumo criativo está em sutilezas quase invisíveis.
Intitulado “Flatbush”, o novo episódio já se inicia com o retorno de uma das personagens mais memoráveis desse panteão: Loretta Durkin (Meryl Streep), esposa de Oliver (Martin Short) que volta para o Arconia após um incêndio destruir seu apartamento e todos os seus pertences. Ao chegar ao apartamento de seu marido, Loretta aproveita para reencontrar Mabel (Selena Gomez) e Charles (Martin), resolvendo ajudá-los no mais recente caso do edifício: o duplo homicídio do porteiro Lester (Teddy Coluca) e do anfigúrico gângster Nicky (Bobby Cannavale). E, como vimos na semana anterior, a investigação tornou-se ainda mais interessante quando o trio de detetives descobriu uma espécie de conchavo entre Lorraine (Dianne Wiest) e Sofia (Téa Leoni), as respectivas viúvas dos falecidos.
Mas é claro que as coisas não seriam tão simples assim: à medida que Loretta coloca seu talento como atriz em jogo e visita a casa de Lorraine junto a Oliver, ela percebe que a tristonha e nostálgica senhora não teve nada a ver com o assassinato de Lester – e que a “ardilosa” transação entre ela e Sofia, na verdade, era para manter um antigo teatro amador aberto para que as crianças pudessem se envolver com a arte (colocando os detetives de volta à estaca zero). Já no Arconia, Mabel se vê numa saia justa quanto Althea (Beanie Feldstein) se torna peça essencial para descobrir quem invadiu o apartamento de Charles e roubou o misterioso dedo que guardavam como pista. E, como vemos ao longo da iteração, as coisas são muito mais cabulosas do que imaginávamos.
Enquanto a semana anterior serviu como um bem-vindo freio no ritmo da série, apostando fichas em um estudo de personagens agradável e despojado, aqui estamos de volta às inúmeras referências às obras de mistério – e uma predileção por “jogos de detetive” que levam os protagonistas em uma busca desenfreada e inesperada por uma verdade ainda impalpável. Obviamente, o suposto beco sem saída em que se veem com a revelação da parceria entre Lorraine e Sofia apenas encerra uma parte da investigação, à medida que Mabel, Charles e Oliver, acompanhados da Detetive Williams (Da’Vine Joy Randolph) descobrem que os vídeos de segurança do Arconia foram adulterados por ninguém menos que o magnata da tecnologia Bash (Christoph Waltz), que os vinha observando às escondidas.
Bash foi introduzido no final do terceiro capítulo ao lado de outros dois formidáveis antagonistas – Camila (Renée Zellweger) e Jay (Logan Lerman) -, compondo um trio de bilionários suspeitos que conseguiram impedir a si mesmos de serem citados no podcast investigativo dos nossos heróis. Manipulando-os como mestres de marionetes, eles estão intimamente ligados com o assassinato de Lester e Nicky, mas nenhuma prova concreta foi encontrada por enquanto. E o retorno impactante de Bash pode ter indicado uma participação maior dos “vilões” no encobrimento do caso.
O destaque do episódio também vai ao time criativo e técnico por trás das câmeras: o roteiro assinado por John Enbom e Jake Schnesel soa como um retorno às raízes, em que as ousadias corriam soltas para aproveitar o melhor dos dois gêneros principais que são explorados na série – e dando espaço merecido para que Lorraine volte a brilhar e a nos encantar através da esplêndida atuação de Streep em o que deve lhe render mais uma indicação ao Emmy. Já a direção encabeçada por Shari Springer Berman e Robert Pulcini abre espaço para um onírico saudosismo que singra entre a melancolia e a felicidade – apostando em uma convergência fabulosa que nos impede de desviar o olhar por um segundo sequer.
O mais novo episódio de ‘Only Murders in the Building’ já pode ser caracterizado como um dos melhores da temporada e da série em si, lapidado com uma exímia paixão que reitera a atração como uma das mais inteligentes e envolventes da atualidade. E, usando e abusando do talento de um elenco estelar, somos relembrados mais uma vez de que essa obra-prima da televisão tem potencial de sobra para ser esquadrinhado tanto nas semanas seguintes quanto em futuros ciclos.
