Crítica | Os Invisíveis: Um quase documentário narrado por judeus sobreviventes do Nazismo

Crítica | Os Invisíveis: Um quase documentário narrado por judeus sobreviventes do Nazismo

Nota:

O assunto não é novo. O Nazismo e seus atributos fazem parte da nossa construção social há décadas a fio. Desde os tempos de escola esse sistema de governo tem feito parte de discussões profundas, conversas corriqueiras, provas e estudos complexos. Com uma história que fala por si só, a temática já se materializou em roteiros, documentários, minisséries e está arraigada à construção das sociedades modernas e contemporâneas. E o longa alemão Os Invisíveis toma para si justamente esse conto de outrora. Como sendo do berço das raízes de uma das atrocidades mais históricas, o diretor Claus Räfle chama para si a responsabilidade de recontar essa dolorosa jornada, a partir das memórias de dois homens e mulheres que foram capazes de desaparecer em meio a uma caçada mortal a judeus. Essa é a história real de quatro sobreviventes, por suas próprias vozes.

Narrado por Hanni Lévy (Alice Dwyer), Cioma Schönhaus (Max Mauff), Eugen Friede (Aaron Altaras) e Ruth Arndt (Ruby O. Fee), quatro histórias distintas se colidem em uma única premissa: permanecer invisível em meio a Alemanha nazista. Com experiências que vão além de qualquer elaborado roteiro sobre o período, cada qual faz uma breve viagem no tempo, remontando a dura tarefa de manter-se vivo em uma época intransigente e intolerante - para dizer o mínimo. Como uma espécie de conversa ao pé da cadeira de balanço da vovó, ouvimos os relatos soberbos dos sobreviventes, à medida que uma narrativa fictícia reconstrói cada um dos capítulos vividos. Mesclando os gêneros documental e dramático, Os Invisíveis faz o mesmo que o extasiante American Animals e adapta o jargão cinematográfico, “baseado em fatos reais”, para algo mais autêntico, palpável e fiel.

Com uma direção simples e um roteiro centrado nas extraordinárias vivências reais dessas figuras, temos uma aula sobre o holocausto e o Nazismo, a partir da perspectiva dos poucos que saíram - quase - ilesos desse período. Com um material fonte riquíssimo que dispensa a famosa liberdade criativa da dramatização, o filme se sustenta essencialmente nos relatos e consegue se transformar em um drama absolutamente didático e voraz para ser ensinado no âmbito escolar e acadêmico. Essa característica que beira o pedagógico faz do longa uma experiência agradável para os que não gostam de documentários, mas comumente reclamam dos “furos” de roteiro daquelas produções baseadas em fatos reais - que mais se apropriam da licença poética do que, verdadeiramente, dos eventos ocorridos.



Com atores locais desconhecidos do público geral, o drama não - necessariamente - entraria na categoria de filmes cults. Talvez por ser cinema estrangeiro, mas não por seu conteúdo fílmico em si. Independente disso, a produção promove uma descoberta de novos conhecimentos, amplia nossa visão sobre o assunto para além do pouco que vimos quando ainda mais jovens e consegue se imortalizar como atemporal. Com uma das próprias fontes (Cioma Schönhaus) falecida desde 2015, a produção já passa ilesa pelo teste do tempo, sendo digna da nossa atenção e admiração. E por se apresentar como um enxerto do antigo livro que - majoritariamente - foca seus relatos nos pavorosos crimes de Adolf Hitler -, Os Invisíveis vai um tanto na contramão, como sendo aquele meio-tempo que separa a tragédia da vida real e embala no milagre de ter vivido o bastante para acrescentar o “entretanto” da sobrevivência na morte que era o Nazismo.





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