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Crítica | Pablo e Luisão – Série de Humor de Paulo Vieira Mostra O Brasileiro que a NASA Deveria Estudar


Existem muitos Brasis dentro desse enorme território chamado de Brasil. Tantos, que mesmo nós, que moramos aqui, desconhecemos boa parte do que somos e do que acontece. Felizmente, ferramentas como o audiovisual, o cinema e o entretenimento iluminam a profundidade e a complexidade do ser brasileiro – para além dos eixos já contemplados. Neste exercício, o espectador se vê na telinha e na telona, se descobre, se reflete, e percebe que somos muito mais parecidos entre quatro paredes do que a ficção consegue contemplar. Claro exemplo disto é a série de comédiaPablo e Luisão’, novo lançamento da Globoplay que chega a partir de hoje na plataforma.

Luisão (Aílton Graça, de ‘Mussum: O Filmis’) é um (a)típico pai de família: ele tenta resolver as coisas sempre na economia, no jeitinho, certo de que consegue fazer melhor do que qualquer serviço contratado. Para dar certo, é claro que ele sempre conta com a ajuda de seu melhor amigo, Pablo (Otávio Müller, de ‘As Polacas’), e, juntos, vale tudo, desde vender salgados na cidade até viajar para outro lugar na promessa de lucrar mais numa quermesse; desde comprar uma máquina de fazer tijolos em vez de comprar o material já pronto, para, assim, economizar na construção. Tudo isso ocorre dentro da casa de Conceição (Dira Paes, ‘Pasárgada’), esposa de Luisão, que se desespera a cada nova invencionice da dupla – o que, por consequência, garante o divertimento de Paulo (Yves Miguel) e Neto (João Pedro Martins), os filhos pequenos do casal.



Dividida em dezesseis episódios de menos de trinta minutos cada, ‘Pablo e Luisão’ é uma das melhores produções nacionais lançadas este ano no streaming (aliás, precisa urgentemente ser lançada em tv aberta o quanto antes!). E uma das coisas que mais surpreende é a quantidade de participações mais que especiais que a produção conseguiu, com nomes como Lima Duarte, Rafael Vitti, Orã Figueiredo, Karine Teles, Solange Couto, Miguel Falabella, Carlos Francisco e Rejane Farias, dentre outros tantos!

Os episódios seguem um formato parecido, embora sejam diferentes entre si. Cada um tem uma história absurda central, que se desenvolve e é finalizada no próprio episódio, sendo também narrada e comentada por Paulo Vieira; ao final, há uma breve entrevista com o trio protagonista verdadeiro (o pai e a mãe de Paulo Vieira e Pablo, o amigo-tio da família, explicando e defendendo suas decisões). Porém, cada capítulo tem um causo surreal, desses que faz você ficar o tempo todo balançando a cabeça em descrença, duvidando da veracidade dos fatos e, claro, gargalhando – e muito!

O brilhantismo da série reside não só no humor nato que habita em Paulo Vieira, mas também em toda a sua família (tal qual é comprovado na série). A sensação é a de que não houve sequer um dia normal nessa família, porque tudo, absolutamente tudo, era (e provavelmente ainda é) exponencialmente elevado a índices alarmantes de surrealismo. García Márquez ficaria abismado com a criatividade de ‘Pablo e Luisão’ (da ficção e da realidade), que vivem, estimulados pela falta de recursos, o verdadeiro realismo fantástico.

Para contar tanta história boa, Paulo Vieira primeiro testou seu público nas redes sociais e enxergou a demanda. Desse insight, houve o feliz encontro do ator com os roteiristas Bia Braune, Caíto Mainier, Maurício Rizzo, Nathália Cruz e Patrick Sonata, que conseguiram tecer enredos de puro entretenimento para o público mesclando inspirações de Mazzaropi, ‘Os Trapalhões’ e outros clássicos do humor.

Dá vontade de maratonar de uma vez a sériePablo e Luisão’, mas talvez o melhor seja ir vendo aos poucos, para dar doses de felicidade no seu dia a dia, afinal ‘Pablo e Luisão’ é o brasileiro purinho, desses que a Nasa deveria estudar. Ou talvez seja melhor não né, pois a Nasa não tem tecnologia suficiente para entender como e por que existem Pablos e Luisões nesse Brasil.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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