Primeiro lançamento do DCU após o aclamado Superman, a segunda temporada de Pacificador chegou ao HBO Max sob fortíssimas expectativas. Além da primeira temporada ter sido um sucesso, essa aqui teoricamente explicaria como o Pacificador do falecido DCEU migrou para o DCU, o que despertou uma curiosidade absurda ante os fãs. E como os trailers entregaram que seria uma trama de Multiverso, parecia tudo muito óbvio.
Porém, como de costume nas obras escritas por James Gunn, o óbvio se torna inesperado, rendendo momentos que podem dar muito certo ou muito errado, dependendo de quem os dirija. Geralmente, quando é o próprio Gunn dirigindo, as coisas dão certo. Mas quando cai para outras pessoas, nem sempre a transposição do texto para as telas costuma funcionar. E isso acontece em alguns momentos nesta segunda temporada. No entanto, é curioso reparar como nem mesmo a presença de Gunn na direção consegue garantir o sucesso dos três episódios que ele comandou. E muito disso se deve justamente a essa responsabilidade de estabelecer o futuro de um universo cinematográfico a partir de uma série, uma problema que destruiu a Marvel nos últimos anos, por exemplo.

O primeiro episódio, que foi dirigido pelo James, já começou bastante morno. A escolha dele para justificar a “mudança” de universo foi um dos retcons mais agressivos e divertidos já feitos, mostrando que esse Pacificador já estava no DCU e que sua vida era 99% parecida com a do DCEU, mudando apenas alguns personagens com quem ele interagiu anteriormente. Dessa forma, eles conseguiram aproveitar a primeira temporada sem maiores explicações. Isso não caiu bem para alguns fãs, que queriam explicações mirabolantes, mas confesso que me arrancou um riso tão sincero que comprei a ideia nesses três minutos iniciais. E acaba que essa proposta de não se apegar a “conceitos multiversais” é justamente o que Gunn pensou para a temporada. O foco não deveria ser os outros universos, mas sim na cabeça abalada e perdida de Chris Smith (John Cena), que está num limbo existencial perigosíssimo. Ele sente que é descartável e que ninguém o valoriza da forma correta, por mais que ele faça de tudo para ser um herói.
Para piorar as coisas, ele se vê abalado pelo luto de ter matado o próprio pai e pelo peso de não se sentir verdadeiramente amado. E isso é um drama muito pesado, porque não existe nada mais desesperador no mundo do que saber que é amado, mas não conseguir sentir ou identificar esse amor diante das desgraças do dia a dia. Nesse contexto, ele descobre acidentalmente um universo em que sua vida deu certo. Ele atua como super-herói junto ao pai e ao irmão, que não faleceu, e todos reconhecem seu trabalho como algo fundamental. Além disso, ele namora Emilia Harcourt (Jennifer Holland), que o abandonou em seu mundo natal. Só que tem um problema nesse mundo novo: já existe um Chris nele.

E isso é “resolvido” da forma mais grotesca possível ainda no primeiro episódio. O “nosso” Chris mata sua versão alternativa acidentalmente, abrindo portas para que ele viva nesse novo mundo. E esse gesto inicial é muito significativo, porque após matar o irmão e o próprio pai, o Pacificador se vê frente a frente consigo e não consegue fazer nada além de matá-lo, mesmo que sem querer. É um impacto psicológico que o acompanha ao longo de toda a temporada, que segue nesse clima baixo astral do protagonista estar desesperado com os próprios fracassos, enxergando como única alternativa se despedir do mundo e partir para o desconhecido. A jornada de Chris é o grande ponto alto série, porque é conduzida como uma metáfora brilhante para o suicídio. Inclusive, a cena dele consumando a “mudança de mundo” após exaurir suas possibilidades do que ele considera sucesso é de uma sensibilidade sem igual.
E o sucesso desse arco se dá não só pelo brilhantismo do texto, mas também pela atuação espetacular de John Cena. Menos espalhafatoso que em suas participações anteriores, ele consegue construir um trabalho dramático incrível sem perder seu timing cômico, transitando muito bem entre esses dois espectros para emocionar e divertir nos momentos mais inesperados. O momento de solução da temporada, no penúltimo episódio, é de chorar de soluçar. Ele se despe da maturidade e chora feito um bebê, em uma sequência que começa com um humor culposo e termina com um nó na garganta.

Esse desenvolvimento dos personagens é muito interessante, dando destaque a cada um deles em suas próprias formas, em seus próprios dramas, conectando-os ao longo da trama pela necessidade urgente de serem amados em suas jornadas. Não importa quem é o personagem, ele é um excluído – ou ao menos é assim que se sente – e sofreu muito. Encontrar o amor, independentemente da forma, é algo que eles entendem que precisam, mas não sabem como acessá-lo. Com um foco maior dado a Chris e Emilia, que são o casal relutante da temporada.
Outro ponto sensacional é a construção desse “mundo perfeito” do Pacificador e sua grande virada na trama. O rapaz foi criado por um pai supremacista, em um contexto no qual é um privilégio ser um homem branco médio nos Estados Unidos. Então, a ideia de levá-lo para uma Terra alternativa, em que a Alemanha venceu a Segunda Guerra Mundial, e ele não perceber que está em um mundo nazista por já estar acostumado aos privilégios, foi uma sacada sensacional. Principalmente nas metáforas e comparações feitas entre os EUA nazista e os EUA “da gente”. Leota Adebayo (Danielle Brooks) refletindo sobre as semelhanças entre essas realidades foi incrível, principalmente dado o momento insano que o mundo vive, em que influenciadores defendem a liberdade para partidos nazistas e outras situações grotescas que foram normalizadas. Sem contar que o momento em que a ficha do Chris cai sobre onde ele está é HILÁRIO.
Infelizmente, os méritos ficam por aí. Se a série focasse em desenvolver esses personagens, provavelmente teria uma temporada muito mais regular. No entanto, a necessidade de expandir esse universo cinematográfico fez com que personagens como Rick Flag Sr. (Frank Grillo) ganhassem um espaço exagerado e até mesmo cansativo. E o engraçado disso tudo é que Flag já havia protagonizado Comando das Criaturas, a animação, e havia sido um bom protagonista. Só que a mudança do personagem do desenho animado para a série foi muito grosseira. A ponto de tentarem justificar isso com uma frase dita por um personagem no último episódio, o que não desce muito bem e explicita apenas que o Rick Flag foi mal escrito na série.
Outro ponto vindo dessa necessidade de expansão foram as incontáveis pontas soltas para serem desenvolvidas em produções futuras. Nada contra, mas o público já cansou disso, e as séries da rival, Marvel, já provaram isso. O arco do Eagly ter poderes, por exemplo, é divertido e engraçado, mas toma muito tempo de tela para introduzir um poder que será importante numa vindoura produção dos Jovens Titãs. Sem contar que distancia o público da trama principal do Pacificador em um momento em que ela requeria bastante atenção. Isso criou uma “barriga” que quebrou completamente o ritmo da série.

No fim, a série acaba tendo uma conclusão muito justa no penúltimo episódio, transformando o capítulo final em um grande comercial para o que virá a seguir no DCU. E isso é complicado, porque tira completamente o peso da conclusão do arco dramático de Chris, que encontra o amor em seus amigos, dando início a uma nova vida, para três minutos depois se ver isolado novamente em mundo novo que só será trabalhado novamente daqui a dois anos, em Man of Tomorrow. O diferencial do Pacificador era justamente ser uma produção mais autocentrada, sem se preocupar tanto com o resto do universo. E essa segunda temporada quebrou essa escrita, fazendo dela uma peça-chave no novo DCU.
Com a responsabilidade de trilhar esses caminhos para o futuro, a segunda temporada perde muitas chances de consolidar essa nova empreitada da DC em fazer produções mais sólidas e independentes, recuperando de vez o prestígio do estúdio. Ao repetir o mesmo erro da Marvel, James Gunn traz uma segunda temporada de Pacificador que patina entre altos e baixos, ficando muito aquém do que ela mesma estabeleceu nos primeiros capítulos. Não é ruim, mas também não é memorável. Acaba caindo na zona da decepção justamente pelo potencial já conhecido.

