Crítica | ‘Pai Mãe Irmã Irmão’ é uma singela análise sobre família e tempo



Jim Jarmusch não se tornou um dos emblemas do cinema independente contemporâneo por qualquer motivo: através de uma visão única e sempre dotada de comentários cômicos e dramáticos sobre o cotidiano, o diretor e roteirista encontrou sucesso em oferecer uma perspectiva diferenciada sobre o banal, transformando o ordinário em instigantes estudos de personagens que, no geral, são universalizados em um nível dialógico considerável com qualquer um. E, depois de ter comandado obras como ‘Estranhos no Paraíso’ e ‘Amantes Eternos’, ele retorna aos holofotes com o denso e propositalmente incômodo Pai Mãe Irmã Irmão.

O longa, que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 9 de abril, divide-se em um singular tríptico narrativo que nos apresenta a núcleos estruturalmente diferentes, mas tematicamente congruentes. O primeiro deles é centrado em Jeff (Adam Driver) e Emily (Mayim Bialik), dois irmãos que estão a caminho da casa do Pai (Tom Waits). Vivendo sozinho no interior dos Estados Unidos, o Pai vive em solidão após a morte de sua querida esposa e, por alguma razão, os três acabaram se afastando uns dos outros para seguir suas próprias vidas, convergindo para um estranho reencontro que se estende por longos silêncios e alguns comentários controversos que mostram que o trio parece não saber se comportar em uma situação corriqueira – uma breve reunião de família na gélida brisa do inverno.

O segundo núcleo nos leva para um subúrbio irlandês e nos mergulha na imponente casa da Mãe (Charlotte Rampling), que se prepara para um elegante chá da tarde ao lado das filhas – a rebelde e sonhadora Lilith (Vicky Krieps) e a metódica e polida Timothea (Cate Blanchett). Logo de cara, é notável como a relação entre o trio parte de um ponto em comum com a história anterior – o constrangimento e o silêncio em virtude de uma preponderante falta de assunto. Lily e Tim nutrem de um respeito inegável pela Mãe, que é uma famosa e introspectiva romancista que não costuma discutir seus intrigantes pensamentos com os outros, mas ao mesmo tempo sentem um distanciamento e uma necessidade de aprovação que divide-se em dois lados de uma mesma moeda: a rebeldia e a restrição.

O núcleo de encerramento nos apresenta a Skye (Indya Moore) e Billy (Luka Sabbat), gêmeos que retornam para a capital francesa após a precoce morte dos pais, que abalou os irmãos. Navegando pelas amontoadas ruas parisienses, eles se dirigem para o antigo apartamento dos pais, agora vazio e ecoante em meio aos infinitos corredores, e começam a se relembrar de suas personalidades inconsequentes e irrequietas – e de que forma eles ecoam nos fortes laços entre Skye e Billy. Dessa maneira, após toda a memória física ter sido encaixotada e compartimentada, a saudade e a nostalgia ganham espaço em uma memorabília abstrata que os acompanhará eternamente.

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Jarmusch constrói uma das narrativas mais sutis de sua carreira até agora ao investir fortemente no silêncio como personagem ativo da trama: nos três segmentos, há uma inescapável celebração da quietude, ramificando-se para o constrangimento, a complacência e a reflexão, como já mostrado nos parágrafos anteriores. De um lado, o realizador se apoia nos laços familiares e na efemeridade do tempo para construir um drama intergeracional com breves e pungentes comentários ácidos que se escondem por trás de uma robusta condução artística.

Optando pelo exuberante conflito entre imagem e história, Jarmusch presta homenagens a outras entradas de sua carreira ao fincar os dentes numa simetria despojada e enganosa; afinal, por mais que as estruturas pareçam firmes e sem muito espaço para ruírem, obstáculos invisíveis posam entre os personagens, impedindo-os de se aproximar como deveriam e tecendo uma breve análise sobre as complexas relações entre pais e filhos e de que forma a universalidade e a particularidade temáticas singram pelo mesmo caminho, como se separadas pela tênue linha do pragmatismo social. Não é surpresa que, assim como suas incursões predecessoras, nos vemos numa representação contundente ao longo de quase duas horas de duração.

O singelo cuidado com os elementos técnicos e artísticos ganha ainda mais beleza e reafirma nossa atenção com o trabalho do formidável elenco: enquanto cada um tem o seu momento de brilhar, alguns destaques merecem menção, incluindo Waits em uma espetacular e precavida rendição como o Pai; Blanchett em uma metamorfose performática completa que nos presenteia com uma das melhores cenas do longa; Rampling encarnando a suntuosa e um tanto quanto intimidadora presença da Mãe; e a sólida e apaixonante química que Moore e Sabbat imprimem em uma história que encerra não apenas o segmento que estrelam, mas os outros também.

Com Pai Mãe Irmã Irmão, Jarmusch nos apresenta a um de seus projetos mais honestos e, em última instância, mostra que nunca devemos tomar as coisas como garantido, principalmente quando pensamos na multiplicidade dos laços familiares e como, no final das contas, não somos tão diferentes assim uns dos outros.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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