Cada família sabe as dores e os sabores de viver entre os seus. Há os momentos bons, inesquecíveis, mas também há muitos momentos de tretas e confusões ferrenhas – que, muitas vezes, até mesmo, acabam algumas relações. Mas também com o tempo, com os rumos que a vida de cada um leva, às vezes a distância, forçada ou não, vai moldando os novos rumos das interações familiares. Esta é a proposta trazida em ‘Pai Mãe Irmã Irmão’, novo filme autoral que chega a partir de hoje no circuito exibidor brasileiro.

Ao longo de uma hora e cinquenta, nos deparamos com três histórias – cada uma com mais ou menos a mesma duração. Na primeira, conhecemos um filho, Jeff (Adam Driver, de ‘História de um Casamento’) e uma filha, Emily (Mayim Bialik, de ‘Big Bang Theory’) que vão visitar um Pai (Tom Waits), que vive numa casa afastada da cidade. Eles levam presentes, mas, a real, é que o assunto entre eles praticamente não existe. Em uma segunda história, uma filha, Timothea (Cate Blanchett, de ‘O Senhor dos Anéis’) e sua irmã, Lilith (Vicky Krieps, de ‘Tempo’) vão visitar a mãe (Charlotte Rampling), que mora num bairro de classe média alta no centro de Londres. A diferença entre ambas as irmãs é nítida, porém à mesa, as duas e a mãe se comportam como a aristocracia manda, num lanche milimetricamente calculado. Por fim, conhecemos dois irmãos gêmeos, Skye (Indya Moore, de ‘Escape Room 2’), que acaba de chegar dos Estados Unidos, e Billy (Luka Sabbat, de ‘Os Mortos não Morrem’), cujos pais morreram num trágico acidente aéreo e, agora, ambos revisitam o antigo apartamento dos pais atrás de memórias dos bons tempos.
Entre ambas as três histórias, alguns elementos reaparecem nas tramas como um assunto em comum: a possibilidade ou não de se brindar com algum tipo de líquido que não alcoólico; a pureza da água que se bebe na Inglaterra; a reunião dos personagens ao redor de uma mesa com alimentos, entre outros. Há também falas que se repetem, para construir uma atmosfera que faz com que essas famílias, apesar de suas diferenças, sejam iguais em alguma medida.
O que mais atrai no roteiro de Jim Jarmusch (de ‘Paterson’) é a forma direta e sincera com que constrói as relações silenciosas e estranhas entre familiares que, a princípio, deveriam ter intimidade. E numa camada invisível, cabe ao espectador especular se a falta de afeto físico ou de aproximação entre os personagens (principalmente nas primeiras duas histórias) tem a ver com a cultura inglesa, menos calorosa que a latino-americana, ou se tem a ver com o próprio distanciamento que o tempo faz com as pessoas, ao ponto de cada um seguir seu rumo na vida e, quando se reúnem novamente, não há mais assunto em comum, memórias recentes que fazem com que o gelo, o climão seja facilmente desfeito.

Também dirigido por Jim Jarmusch, o diretor consegue com muita facilidade construir um clima de tensão e de constrangimento entre os personagens que dura uma eternidade enquanto a visita acontece, e isso imediatamente causa desconforto no espectador, afinal, todo mundo já passou por uma situação de visita de tabela a qual a gente reza para acabar logo. Esse sentimento – do filme e no espectador – só muda na última história, que traz alguma esperança em sinalizar que, na ausência dos pais, os filhos conseguem andar com suas próprias pernas, mantendo entre si uma relação mais amigável.
Importante nome do cinema autoral, Jim Jarmusch traz em seu ‘Pai Mãe Irmã Irmão’ uma proposta que tira o espectador da sua zona de conforto e traz uma reflexão individual. Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza, é uma opção alternativa nos cinemas brasileiros.

