Crítica | ‘Para não ser levada por qualquer ventania’ – A profunda ebulição do silêncio [Mostra de Cinema de Tiradentes]

Impressionante como, em apenas sete minutos, uma obra consegue ser tão profunda e criativa ao mesmo tempo. Articulando as diversas potencialidades da linguagem, tendo apenas ligações telefônicas feitas a um alguém especial que já se foi e de uma série de cenários sob um olhar distante e aleatório, o curta-metragem Para não ser levada por qualquer ventania apresenta o luto como tema principal de uma narrativa que se sente e convoca reflexões.

Selecionado para a Mostra de Cinema de Tiradentes 2026, o projeto escrito e dirigido por Eleonora Loner utiliza poucos recursos e, ainda assim, consegue alcançar o brilhantismo de uma mensagem por meio de uma ideia simples e eficiente. Filmagens caseiras – provavelmente feitas por câmeras de celulares – tornam-se nossos elos com os mistérios de algumas conversas que, a princípio, não entendemos direito sobre o que se trata, mas que vamos entendendo aos poucos seu sentido.

A necessidade do afeto, o desejo de não perder as lembranças, as aflições da ausência, e até mesmo o silêncio que se torna ensurdecedor são pontos chaves para decifrarmos as mensagens que a obra produz chegando diretamente ao conjunto de reações que o luto provoca. Esse sentimento de vazio logo vira uma dedicatória poética, avançando por um percurso de ressignificação.

Ao dividir com o público essa história, de maneira corajosa, Loner expõe suas dores, desejos e tormentos, através também do vazio que ficou. Nessa ebulição do silêncio – um ponto marcante na obra -, todos nós ganhamos, de alguma forma, razões para pensar sobre nossas próprias histórias e nossos próprios silêncios deixados por alguém que já se foi.

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Raphael Camacho
Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.