sexta-feira, fevereiro 23, 2024

Crítica | Paraíso – Netflix lança inteligente e engenhosa ficção-científica

Você já imaginou se pudesse vender ou receber tempo de vida? Navegando por uma engenhosa distopia, até mesmo um criativo contexto geopolítico, a nova produção alemã da Netflix Paraíso nos leva de encontro a uma realidade onde a variável tempo não necessariamente está ligada à idade já que as pessoas que vão decidir até onde vão. Com uma tripla direção, um caso bem raro, assinam: Boris Kunz, Tomas Jonsgården e Indre Juskute, o empolgante projeto entrega críticas sociais por todos os lados, os sinais de atenção aos avanços tecnológicos nas mãos erradas, além de paralelos com a realidade como o problema dos refugiados e imigrantes que estão ilegais, tudo isso ligado à força do instinto materno que se torna uma ferramenta que percorre toda a narrativa, um ponto central das ações dos personagens.

Na trama, conhecemos Viktor (Numan Acar) um jovem bem sucedido que mora em um bairro rico na capital alemã ao lado da esposa que é médica. O protagonista trabalha como gerente de doação de tempo no conglomerado farmacêutico AEON que possui a expertise de conseguir vender tempo de vida através de um polêmico programa de transferência. Viktor, sempre se beneficiou do sistema mas começa a repensar a ideia quando perde o luxuoso apartamento em um incêndio, sem direito ao seguro, já que o laudo atesta negligência. Só que na época do financiamento com um grande banco, a esposa deu como garantia seu tempo de vida em relação ao total do apartamento: 2,5 milhões de euros o que equivale a 40 anos de vida! Buscando uma solução para não ver a esposa envelhecendo antes do tempo, ele começa a percorrer pelos mais mirabolantes obstáculos em busca de alguma saída.

Rodado todo na Lituânia, num ciclo atemporal, capitalista, onde o dinheiro fala mais alto (nada diferente dos dias atuais!) o longa-metragem de quase duas horas de duração consegue prender a atenção do público do início ao fim pois o discurso da distopia é bem detalhado, os paralelos com a realidade são bem propostos. Há a questão também da moralidade, um conceito explorado de forma ampla. Aqui o protagonista em conflito não é herói de nada, parece sair da sua bolha acomodada a partir de um trauma onde invoca para si um sentido de heroísmo mas seu passado o condena. Em paralelo, vemos a dona de todo o experimento de transferência de tempo, uma CEO arrogante, egoísta, de uma empresa com sua matriz instalada em uma Berlim num futuro não longe de nossos tempos, que personifica como alguns lidam com o poder que tem sobre os outros.

A relação entre marido e mulher, o casamento, os sonhos de terem filhos e construírem uma família juntos acaba sendo um importante trunfo da narrativa, tudo passa por isso. Ainda há tempo de uma construção criativa sobre o olhar pelo mundo: alguns países bálticos fora da união europeia, uma grande potência que não permite que o programa de doação de tempo seja feito em seu território, a vida virando mercadoria nas mãos de pessoas influentes, a situação dos refugiados, grupos de protestos, a questão da justiça com penas criminais trocadas por transferência de tempos de vida, o submundo, a ilegalidade.

Paraíso chega com o pé na porta, com um discurso afiado, abrindo nossos olhos para um refletir sobre a sociedade, fazendo perguntas que podem parecer meio distantes da realidade que estamos… mas nem tanto assim.

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