Crítica | Paraíso Perdido – Drama musical brasileiro emula Almodóvar

Crítica | Paraíso Perdido – Drama musical brasileiro emula Almodóvar

Nota:

Novelão Inspirado

O público brasileiro está acostumado com a dramaturgia de folhetins, já que em nosso país as novelas – cada vez mais elaboradas, é verdade – dominam a audiência desde sempre. Pegando este mote, o novo longa de Monique Gardenberg (Ó, Paí Ó) se banha em tais tintas ‘Almodóvarescas’, acrescentando números musicais intercalados em sua narrativa (todos providos de canções bregas) e muito charme, o que apenas soma à criatividade do projeto.

Em Paraíso Perdido somos levados ao universo noturno de uma boate, que leva o título do filme, administrada por um verdadeiro clã. Nesta família, três gerações fortificam seus laços, agregando novos membros a este núcleo uníssono. O patriarca José é interpretado pelo músico Erasmo Carlos, o Tremendão em pessoa. Pela tela desfilam parte da nata do cinema nacional – com gente como Júlio Andrade, Hermila Guedes, Marjorie Estiano, Seu Jorge, Julia Konrad e Humberto Carrão.

O clima é realmente único, e para o espectador desavisado talvez seja necessário embarcar na ideia para comprar totalmente a proposta. A atmosfera é de faz de conta e os problemas resolvidos através da união. Os riscos apresentados não são tão graves, mas apesar disso existem alguns subtextos pungentes a serem adereçados. O mais relevante deles para o momento é o de aceitação da diversidade sexual, o qual vem servido por uma significativa estreia de um novato. O jovem Jaloo é o chamariz do longa no quesito das atuações e tira de letra todas as nuances de Imã, a estrela da boate.




O protagonista aqui é Odair, papel de Lee Taylor, policial que após salvar Imã de um ataque homofóbico, é convidado e passa a trabalhar como segurança do local. É através de seus olhos que nós, o público, adentramos Paraíso Perdido – o clube noturno e o filme. O estabelecimento, no entanto, guarda inúmeros segredos, que dizem respeito inclusive ao próprio passado e origem do personagem principal.

O item no qual muitos têm encontrado barreira é na realidade o pilar desta estrutura. É claro que uma obra recambolesca necessita de tais adereços em sua confecção. Sendo assim, diversos personagens vêm e vão acrescentando à narrativa suas tragicômicas experiências, saídas do maior dramalhão mexicano. Isso quando não se mostram intimamente interligadas. Ou seja, espere a mãe de um ser a ex-mulher de outro, a morte do pai de um ter sido cometida por outra e por aí vai, conveniências típicas dos programas diários que os latinos, em especial os brasileiros, aprenderam a fazer carreira em cima.

Diferentemente de qualquer outro tipo de conveniência, quando a proposta do filme não é essa, Paraíso Perdido se fortifica com elas, justamente por usá-las como base, ao ponto de ser indispensável em sua construção do cafona. Tudo é milimetricamente empilhado de maneira deliciosa a fim de enfatizar um mundo à parte. A produção, no entanto, é recriada com tanto esmero que se torna irresistível não se entregar aos figurinos espalhafatosos, uma direção de arte que exala o cheiro do local e uma fotografia que pulsa com vida nos imergindo pela casa noturna.

Paraíso Perdido, assim como As Boas Maneiras, é certeira investida de uma produção brasileira no cinema de gênero, igualmente focando no lúdico, no poético, e no surrealismo do fabulesco para desenhar sua narrativa sedutora.





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