Crítica | Parasita – Vencedor em Cannes, filme é um poderoso delírio de sobrevivência

Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2019, Parasita (Gisaengchung) é a obra-prima do diretor sul-coreano Joon-ho Bong. Apesar de ser considerado um clichê crítico adjetivar uma produção cinematográfica de “obra-prima”, este é o caso de conceder esta qualificação pelo mérito do cinegrafista, do fotógrafo Kyung-pyo Hong (Em Chamas) e dos roteiristas, Bong e Jin Won Han (Okja), ao nos presentear com esta inusitada jornada.

O longa possui 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e tem sido eleito pela crítica especializada como o melhor e mais insano filme do ano.

A sensação é que Joon-ho Bong atingiu o apogeu buscado desde o fascinante O Hospedeiro (2006). Juntando as questões de classe social, drama familiar e comicidade de situações adversas, apresentadas em Mother (2009), Expresso do Amanhã (2013) e Okja (2017), o cineasta conduz com maestria a sua orquestra e nos desperta os mais pavorosos prelúdios sobre as diferenças sociais. 

Nossa caminhada começa com os irmãos “Kevin” (Woo-sik Choi) e “Jessica” (So-dam Park) em busca de um sinal de WiFi vindo de algum lugar próximo. A impressão sobre a família Kim é dada nos primeiros minutos de projeção, quando a câmera apresenta um apartamento no porão com latas e caixas pelos cantos e os jovens se contorcendo para encontrar um sinal eficiente ao lado da privada. Em um ambiente de desgovernança, a família lida com os bêbados que mijam em sua janela e ganham alguns trocados montando caixas para uma pizzaria. 

Desafortunados, porém sagazes para lidar com aspereza do cotidiano, a sorte parece mudar quando um amigo de Kevin lhe pede para substituí-lo como professor de inglês de uma jovem de família rica. De repente Kevin vê-se em uma luxuosa mansão e seu primeiro passo é conquistar a confiança da matriarca Yeon-kyo Park (Yeo-jeong Jo) e, segundo, o coração da frágil adolescente Da-hye Park (Jung Ziso). Logo, o jovem arquiteta a obtenção de um emprego para cada membro de sua família dentro daquele mesmo espaço.

Até então, a construção do maestro Bong soa como uma divertida sonata com elementos de humor presente nas chamadas “soluções inteligentes”, o qual tudo soa surpreendente e completamente verossímil ao espectador. Esta construção é bem sucedida nas comédias Onze Homens e Um Segredo (2001) e Truque de Mestre (2013), no entanto, esta é apenas a primeira parte do encanto do desencadeamento da crítica “parasitária” embutida na obra. 

Tendo uma tempestade como a ruptura do status quo – no qual a desprovida família Kim desfrutava dos bens da abastada família Park durante uma viagem de férias -, o roteiro dá uma inesperada guinada de 360°. A partir deste momento, o cômico se embaralha com o sórdido e, tal como em O Expresso do Amanhã, revela-se uma luta pela sobrevivência dentro de uma estrutura microcósmica. 

Junto com a chuva torrencial, o enredo desestabiliza os seus seguidores imersos ao dilúvio de novas informações. Ao mesmo tempo em que cada gota transborda nas vias e canais, as possibilidades do filme tornam-se cada vez mais misteriosas e os objetos, os diálogos, tudo transforma-se em uma plausível pista do porvir.

Toda a mise-en-scène de confrontação do medo e horror da flagelação humana, desde o início até o último minuto desta fábula de sobrevivência, é um delírio cinematográfico. Comprovando, deste modo, que Joon-ho Bong é um dos maiores realizadores da atualidade. Ele entrega exatamente o que o público espera ao começar a prestar a atenção aos feixes de luz pulsantes na tela: o deleite. 

Notícias

‘Um Lugar Silencioso: Parte III’ ganha data de estreia no Brasil

A Paramount Pictures finalmente confirmou quando a aguardada sequência...

10 filmes tão bons que até sua preguiça vai curtir!

Tem dias em que estamos tão estressados que não...

‘Mortal Kombat II’ ganha data de estreia no streaming!

'Mortal Kombat II', sequência estrelada por Karl Urban no...
Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.