Filme exibido na 49ª Mostra de São Paulo.
Park Chan-wook é um nome muito prestigiado e respeitado na sétima arte, tendo explorado temas sociais e políticos através de sátiras sagazes e jocosas. Sendo responsável por misturar comédia e suspense através de obras-primas cinematográficas, Chan-wook é o responsável pelos elogiados longas-metragens ‘Oldboy’ e ‘A Criada’, conseguindo arquitetar épicas joias que não apenas demonstram uma habilidade inerente à sua expressividade artística, mas funcionam como cartas de amor àquilo pelo que é apaixonado.
Em 2025, o cineasta retornou com mais um ambicioso projeto, que foi selecionado para a 49ª Mostra de Cinema de São Paulo. Intitulado ‘No Other Choice’, esse thriller satírico é infundido em uma reflexão pesarosa e iminente sobre o corporativismo predatório e a forma como somos condicionados a um sucesso inalcançável que nos drena de qualquer senso de moral e ética. O filme, carregado de influências de títulos como ‘O Talentoso Sr. Ripley’ e funcionando como uma gloriosa adaptação do romance de Donald E. Westlake, é apenas o que podemos considerar o melhor e mais inesperado suspense do ano, que acerta todas as marcas e tem grandes chances de representar a Coreia do Sul na próxima temporada de premiações.

A trama acompanha Yoo Man-soo (Lee Byung-hun), um homem que devotou sua vida para trabalhar em uma indústria de papel e que acredita ter alcançado o ápice da felicidade não apenas pelo reconhecimento em seu ofício, mas pelos constantes frutos que colhe de seu esforço. Porém, essa tranquilidade se esvai como areia entre os dedos quando a companhia em que é funcionário é comprada por um conglomerado norte-americano, compelindo a uma demissão em massa que o inclui e que ignora quaisquer tentativas de protesto – ainda que Yoo reafirme que se entregou de corpo e alma para o sucesso da empresa.
Ele, então, passa por uma espécie de sessão de terapia em que reafirma constantemente que a inevitável demissão não é sua culpa e que, em pouco tempo, ele conseguirá outro trabalho, colocando na cabeça que, em três meses, tudo estará bem. As semanas passam e, pulando de emprego em emprego, Yoo se vê em uma instabilidade condenável, incapaz de prover para a esposa, Lee Mi-Ri (Son Ye-jin), e os filhos – e recorrendo a métodos nada convencionais para superar os obstáculos e recuperar o mínimo de controle que seja sobre sua vida. Afinal, na disputa por uma vaga de emprego, Yoo esquadrinha um plano de literalmente eliminar a concorrência, nem que seja forçado a recorrer ao crime para alcançar seu objetivo.

Como já poderíamos esperar, Chan-wook arquiteta mais uma obra-prima inegável e pungente que acrescenta mais um espetacular capítulo à sua filmografia – e, como mencionado nos parágrafos acima, o cineasta faz isso sem se apoiar em preciosismos exagerados e pedantismos artísticos. Pelo contrário, a estética firmada aqui pode soar teatral e burlesca, mas é um artifício para, com comicidade, retratar uma brutal realidade de qualquer um que não pertence à seleta e impiedosa elite econômica – e o uso incisivo de contra-plongées obtusos reafirma esse prospecto deliberadamente opressivo, acompanhando os ângulos retorcidos e a falsa sensação de dominação que o protagonista insiste em procurar.
Byung-hun, recém-saído de seu elogiado papel na série ‘Round 6’, da Netflix, mergulha em um tour-de-force com toques de absurdez que o transforma no aspecto de maior atenção do longa. O astro, a princípio recoberto pelo apoio incondicional da esposa e pelo prospecto positivo de ter se dedicado tantos anos ao trabalho, navega entre a loucura e o desespero enquanto tenta se sagrar algo que não é e se vê fruto de uma mentalidade corrosiva e intrínseca à necessidade do homem em subjugar o outro. O singular cenário em que singra corresponde a uma inconsciente e complacente servidão eterna a um sistema que, obviamente falho, não tem forças para se estruturar a não ser em detrimento do conceito de humanidade.

As escolhas de Chan-wook são certeiras, desde a construção do suspense até o momento em que o protagonista atinge seu limite – e os elementos cômicos impedem que o filme se transforme em um retrato pessimista e derradeiro da realidade e insurja como um alerta crítico sobre a condição autodestrutiva do individualismo. Yoo é fruto de uma visão corporativista falha e decadente, e sua reação à constante opressão materializada pela máxima da “lei da oferta e da procura” é inexplicavelmente compreensível. O ácido humor que acompanha sua jornada e que concretiza uma ruína há muito premeditada emerge como um escape momentâneo e uma fuga daquilo que o assombra dia após dia.
É incrível o fato de Park Chan-wook se reinventar a cada ousado projeto que toma em mãos, superando a si mesmo filme a filme. Com ‘No Other Choice’, o cineasta assegura seu merecido espaço entre as produções a serem indicadas para o Oscar 2026, além de reiterar a importância fundamental do cinema sul-coreano para a contemporaneidade – e de que maneira uma obra-prima é construída.
