Crítica | Pinóquio – Roberto Benigni está de volta em sombria versão da clássica história infantil



Pinóquio é, provavelmente, uma das histórias mais conhecidas do mundo. É difícil pensar em alguém que não a conheça. Porém, assim como muitas outras, as aventuras do boneco de madeira que queria virar um menino de verdade são mais conhecidas pela versão fofinha e redondinha da Disney, que construiu uma leitura ingênua e solar do conto. Com uma proposta muito mais honesta, chega essa semana aos cinemas brasileiros um novo ‘Pinocchio’.

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Geppetto (Roberto Benigni, irreconhecível nas primeiras cenas, mas com seu velho jeitão chapliniano) é um artesão pobre, solitário, sem dinheiro até para comer. Certo dia, um teatro de marionetes de madeira chega à cidade e Geppetto tem uma bela ideia: vai construir seu próprio boneco. Ele corre para a loja do Mestre Cereja (Paolo Graziosi) para pedir uma tora de madeira emprestado, e o homem acaba lhe dando uma tora mágica. Assim, ao concluir o boneco, a quem dá o nome de Pinóquio (Federico Ielapi), Geppetto começa a falar com ele – e então, o boneco responde. Maravilhado, o velho artesão se enche de orgulho de sua obra prima e o chama de seu filho, porém, em vez de ser um filho bem comportado, Pinóquio está mais interessado em curtir o mundo e descobrir o que há por aí… e, nessas aventuras, acaba se perdendo do pai.

Inspirado nas histórias originais publicadas por Carlo Collodi em 1882 de maneira periódica no “Jornal para as crianças”, o ‘Pinóquio ’ que chega agora aos cinemas pelas mãos do cineasta Matteo Garrone é uma versão muito mais raiz do que aquela que o público está acostumado. Ao trazer uma leitura realista da história ficcional, o diretor imprime uma possibilidade bem mais próxima de como eram, de fato, as fábulas infantis de antigamente, ou seja, aventuras com um intuito de promover a reflexão e o aprendizado em vez de apenas agradar aos olhos e infantilizar os personagens.

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Para alcançar um resultado estético tão primoroso, era fundamental que a direção de arte fosse afiada e abraçasse o projeto – e, portanto, este é um dos pontos mais incríveis do filme. Sob o comando de Francesco Sereni, todos os departamentos de arte estão em sintonia e o que o espectador vê em ‘Pinóquio’ é uma belezura: a maquiagem, o figurino, a decoração dos cenários, os efeitos especiais e visuais – tudo para criar uma bela fábula em que mistura seres humanos e animais falantes bem no estilo de grandes filmes de fantasia dos anos 1980 e 90, como ‘As Aventuras do Barão de Münchausen’, ‘Labirinto: A Magia do Tempo’ e ‘Willow: Na Terra da Magia’.

Apesar de esteticamente belo, a produção fez a esquisita escolha de, mesmo sendo um filme italiano, ser falado todo em inglês. É claro que é uma estratégia para ser melhor aceito nos festivais de cinema e pelo público estadunidense, porém o resultado gera incômodo, não tanto pelo sotaque italiano falando inglês, mas porque muitas vezes esse sotaque gera confusão (dá a entender que estão falando uma coisa, mas na verdade é outra) e, acima de tudo, porque soa falso, uma vez que a história e a produção são originalmente italianas. Perderam uma grande oportunidade de reapropriar a história à cultura italiana.

O novo ‘Pinóquio’ de Roberto Benigni é um belíssimo filme para adultos, que nos remete às origens das fábulas que ouvíamos quando criança. É um forte candidato a prêmios técnicos dos festivais e desconstrói a narrativa única erigida pela Disney por décadas.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.