Crítica | ‘Pose’ retorna com ácido teor político e o glamour dos ballrooms

Crítica | ‘Pose’ retorna com ácido teor político e o glamour dos ballrooms

Nota:


No ano passado, Ryan Murphy investia seus esforços em uma nova série para a FX e se afastava do drama e do terror de suas produções antológicas: com Pose, o work-a-holic showrunner nos convidava a voltar algumas décadas no tempo, estacionando nos conturbados anos finais da década de 1980 e começo dos anos 1990, mais precisamente nos ballrooms que tanto lotaram as boates LGBTQ+ de Nova York. Aqui, a ideia era explorar a cultura criada pelas mulheres transgêneros negras e latinas que não se conformavam com a marginalização excessiva de sua comunidade e encontraram voz numa expressiva arte que até hoje é relembrada e cultuada por grande parte da sociedade – mesmo que se esqueça de suas duras origens.

Agora, chegamos à aguardada segunda temporada, na qual Murphy e seu time de excelentes diretores e roteiristas abrem as portas para nos apaixonarmos e nos comovermos com personagens extremamente complexas e que refletem um preconceito que mesmo hoje é enraizado na comunidade em que vivemos. E, se o ano anterior insurgiu como panfleto político para conhecermos a história de homens e mulheres batalhadores que não aceitavam os rótulos que lhes eram enfiados, o novo ciclo ganha um palanque ainda maior – ainda mais levando em conta que a narrativa em questão deu um salto no tempo para refletir a massificação da cultura apresentada (incluindo a famosa dança popularizada e apropriada por Madonna, conhecida como vogue).

É necessário, a priori, traçar um paralelo entre o antes e o depois. Nos primeiros oito capítulos, fomos apresentados a um conflito interno e externo entre os protagonistas que refletia uma construção decadente, salvo exceção pelo momento em que cada um deles se rendia às artes dos bailes e tinha a chance de brilhar nos holofotes. Normalmente, o conflito de gerações recebia uma atenção mais especial, servindo de força-motriz para que as tramas e subtramas se desenrolassem com maior palpabilidade; agora essa momentânea apresentação encontra uma nova camada, um respaldo muito maior do que poderíamos imaginar conforme os personagens principais amadurecem exponencialmente e começam a perseguir seus sonhos em um cenário caótico e conturbado no qual a confiança é um dos principais elementos de sobrevivência.

De um lado, Blanca (Mj Rodriguez) mantém seus filhos na linha e serve de guia para que cada um alcance o que sempre desejou: Angel (Indya Moore) eventualmente é contratada para ser modelo de uma grandiosa agência de modelos, enquanto Damon (Ryan Jamaal Swain) está prestes a se formar na prestigiada academia de dança New School of Dance e, depois de alguns tropeços inter-pessoais com membros de sua própria família, acaba viajando para Paris e se torna um grande coreógrafo; e a própria Blanca vê, ainda que momentaneamente, seu sonho de abrir uma manicure e pedicure tomando forma até um desastre pré-planejado torná-lo poeira. Entretanto, enquanto todos esses acontecimentos parecem aglutinados uns aos outros, Murphy e sua equipe fazem questão de que tudo seja minuciosamente construído, mesmo cedendo a algumas repetições desnecessárias.

Enquanto isso, Elektra (Dominique Jackson) pula de casa em casa, se sentindo traída pelas próprias filhas que salvou da total ruína, mas reergue-se como uma poderosa mulher dominatrix que utiliza toda sua beleza e sua sedução a favor próprio. Não é surpresa que a incorrigível personagem transforme-se em uma versão mais acida de si mesma, ao mesmo tempo que recua alguns passos para cuidar das pessoas que ama. Sua sarcástica complacência, na verdade, é dotada de uma persistente compaixão que não suporta ver suas irmãs e filhas sofrerem (mas também não abre mão de uma boa fofoca).

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Em meio a esses problemas aparentemente “comuns”, cada uma das personas lida com pesarosos dialogismos com a realidade, incluindo a crescente viralização do HIV, a homofobia e a transfobia cometidas pela comunidade heterossexual dos Estados Unidos e do mundo, e o fato de lidarem com perdas sem deixar se levar pelas ruínas do luto: é nesse contexto que Billy Porter alça voo com uma provocante e propositalmente controversa performance que libera as fragilidades de seu personagem, Pray Tell, digladiando com seus demônios interiores e fazendo denúncias extremamente necessárias. Também é dentro dessa esfera que Candy (Angelica Ross) é brutalmente assassinada em uma espécie de sacrifício para reunir pessoas outrora separadas por divergências idiotas, por assim dizer.

É inegável dizer que a segunda temporada se afasta da esperada guinada narrativa para focar mais um intimismo melodramático que, por vezes, é explorado além do que deveria; felizmente, tal estética novelesca é ofuscada pelas brilhantes atuações de cada membro do elenco e pela agonizante trajetória de amadurecimento que os personagens sofrem – seja com mentiras, traições e reviravoltas aplaudíveis e de nos arrancar o fôlego. Mais que isso, a série retoma a necessidade de fornecer voz a minorias sociais e mostrar uma apaixonante perspectiva propositalmente varrido para debaixo do tapete.

Não é surpresa que Pose mantenha o nível de excelência de seu ano de estreia: afinal, Ryan Murphy, em colaboração com grandes nomes da indústria do entretenimento, prestam homenagem a uma época que, do mesmo jeito que foi marcada pela dúvida e pela falta de prospecção pessoal, brilhou com personalidades marcantes que merecem uma segunda chance – e nosso completo e incondicional amor.



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