terça-feira, fevereiro 20, 2024

Crítica | Puan – Longa Argentino Usa a Comédia Para Falar de Filosofia e do Colapso Econômico do País

Recentemente a Argentina foi às urnas para eleger um novo presidente para os próximos quatro anos. Independentemente do resultado, fato é que há muitos anos o país vizinho vem tentando sobreviver a uma infinita crise econômica que tem atravessado gerações e impedido os cidadãos de conquistarem seus sonhos e, em muitos casos, tem forçado as pessoas a se submeterem a qualquer tipo de serviço para conseguirem pagar as contas. Então, dentro de um universo em crise, sobra tempo e energia para analisar o problema com profundidade? Dessa inquietação nasce o filme ‘Puan’, comédia dramática argentina que teve passagem no Festival do Rio de 2023 e foi premiado no Festival San Sebastián desse ano, e que chega a partir dessa semana aos cinemas brasileiros.

Marcelo (Marcelo Subiotto) é professor de filosofia na universidade de Buenos Aires no bairro de Puan, zona distrital da capital portenha. Marcelo é discípulo da linha do filósofo Heidegger e de sua maneira de pensar o mundo – herança oriunda de seu mentor de faculdade que é titular na cátedra de Puan. Porém, quando esse mentor sofre um infarto súbito e falece, a vaga no departamento fica em aberto, o que acaba atraindo de volta Rafael Sujarchuk (Leonardo Sbaraglia), um ex-aluno e colega de classe de Marcelo que fora se especializar na Alemanha e que retorna agora sendo ovacionado por todos, como se ir para o exterior fosse sinônimo de vencer na vida. Aos poucos essa participação constante de Rafael vai irritando Marcelo, que, de uma hora para outra percebe que o posto que tivera como certo a vida inteira de repente está em risco e que ele precisa se reinventar para disputar a vaga, enquanto, ao mesmo tempo, se esforça para pagar as contas, dar apoio à esposa feminista e participar da vida escolar de seu filho.

Talvez até por ser uma coprodução Brasil e Argentina, ‘Puan’ é um filme que se passa na Buenos Aires atual, mas facilmente poderia se passar no Rio de Janeiro, em São Paulo ou em qualquer universidade pública latino-americana. Como pano de fundo para a vida cotidiana desse cidadão de meia idade e classe média universitário há dois cenários em colapso: um, a economia do país, que faz com que o protagonista tenha que trabalhar em diversos serviços para além de seu emprego regular, o que acaba fazendo com que sua energia se esgote; dois, o cenário da educação pública, sucateada, maltratada e esquecida frequentemente pelos governantes, que busca resistir de pé apesar da falta de recursos. Dentro desses cenários, o protagonista é um professor de filosofia, uma disciplina extremamente importante para estimular o pensamento crítico nas pessoas, mas que vem sendo desmerecida socialmente e retirada do currículo acadêmico em muitos países.

Aí reside a beleza tanto do roteiro quanto da direção de María Alché e Benjamín Naishtat: o enredo parte dos dilemas levantados pelos pensamentos de Heidegger (mais dramático) e de Spinoza (mais positivo) para embalar dois personagens opostos (um mais tradicional, outro mais modernoso) centrados em uma disputa por um emprego entendido como financeiramente seguro, mas que, no atual desmonte educacional, perde sua relevância em um país melancólico e de crise econômica constante.

Puan’ é um filmaço direcionado a todos e todas que defendem e sonham com uma educação pública de qualidade. Divertido, nervoso, comovente e emocionante, constrói um retrato atual e pulsante da realidade dos professores na América Latina.

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