Dois anos depois de ter estreado no circuito internacional, o suspense ‘Push – No Limite do Medo’ chegou aos cinemas nacionais no último dia 5 de março, promovendo uma interessante história sobre uma invasão domiciliar que toques de sobrenatural. Dirigido pela dupla David Charbonier e Justin Powell, que já haviam trabalhado juntos em ‘O Menino Atrás da Porta’ e ‘Ritual Maldito’, o filme estende-se por breves noventa minutos, mas mesmo dentro de um espaço controlado e de uma atmosfera que preza, a princípio, pelas pulsões psicológicas, o resultado é muito aquém do esperado e se arrasta para uma conclusão frustrante que não faz qualquer sentido dentro do que se esperava.
A trama acompanha Natalie Flores (Alicia Sanz), uma mulher que carrega os fantasmas de um passado muito distante ao constantemente ser levada de volta ao dia em que o ex-marido faleceu em um trágico acidente de carro. Prestes a dar a luz ao filho do casal, ela tenta se reerguer e recebe a tarefa de vender uma grandiosa mansão no interior do Michigan – que, por sua vez, possui uma história arrepiante. Ao que tudo indica, a propriedade é assombrada pelos assassinatos que ocorreram lá dentro e pelos bizarros acontecimentos que aterrorizaram os consecutivos moradores. Porém, Natalie não acredita em nada daquilo – e encontra na venda um mais um motivo para seguir em frente.

As coisas não saem como o planejado quando, durante um open house, nenhum cliente em potencial aparece. Isto é, até um misterioso homem, interpretado por Raúl Castillo, aparecer na calada da noite e pouco antes da corretora encerrar o expediente. Logo de cara, Natalie percebe que a inexplicável figura parece conhecer os suntuosos corredores do casarão, demonstrando uma agourenta intimidade e um apreço arrepiante pelo local. Não demora muito até que ele revele ser um psicótico serial killer que clama ter uma conexão psíquica e espiritual com a mansão – e, tendo escapado de um instituto mental na noite anterior, ele se torna algoz da protagonista, lançando-a em uma corrida pela sobrevivência.
Charbonier e Powell encontram certo sucesso no ato de abertura ao ousar em uma direção que inclui uma fotografia propositalmente estourada e planos-sequência que transformam o gigantesco edifício em um inescapável labirinto recheado de cômodos e escadarias. É notável como a dupla bebe de produções clássicas do gênero de invasão domiciliar, como ‘O Quarto do Pânico’ e ‘Hush: A Morte Ouve’; todavia, a dupla de cineastas não consegue encontrar a alma necessária para ao menos emular as melhores partes das obras de David Fincher e Mike Flanagan, rendendo-se a uma descabida pretensão que transforma o projeto em uma série de metáforas cansativas que vão de lugar nenhum a nenhum lugar.

Responsáveis também pelo roteiro, os realizadores sequer criam personagens que nos despertam o mínimo de interesse: Sanz, trazendo um charme nato para as telonas, é forçada a navegar em diálogos autoexplicativos e máximas que beiram o ridículo, destituindo-a de uma humanidade necessária, ainda mais quando somos constantemente lembrados de um amor que se perdeu e cuja única lembrança material reside em seu útero. Conforme é perseguida pelo implacável homicida, ela se transforma em uma habilidosa “guerreira” que não tem um minuto de paz em seu sangrento tour-de-force, tomando decisões impalpáveis e sem nexo a fim de preencher os vários buracos do enredo.
Ao passo que os atos cometem o crasso equívoco de se levarem a sério demais, como se almejassem a uma revolução cinematográfica que não tem qualquer espaço dentro da constrita ambientação do longa, a estrutura degringola em uma sucessão de previsibilidades e escolhas controversas que nos convidam a uma espiral de frustrações. Nem mesmo Castillo, recém-saído de uma performance aplaudível na série ‘Task: Unidade Especial’, é explorado como deveria, rendendo-se aos estigmas de incontáveis antagonistas e sendo infundido em uma etérea subtrama que nos é revelada no momento errado e da maneira errada.

Com exceção da tétrica e mnemônica trilha sonora de Matthew James, que resgata as incursões mais sombrias de Danny Elfman para uma orquestral e angustiante composição, os aspectos técnicos não fogem muito da obviedade. O jogo entre simetria cênica e luz e sombra assinado por Daniel Katz regurgita produções similares, enquanto a sóbria paleta de cores é reminiscência da própria carreira inicial de Flanagan, que, de fato, sabe como transformar seus cenários em entidades vivas para o longa.
‘Push – No Limite do Medo’ configura-se como uma sólida ideia que não sabe o que fazer para impedir que o projeto se transforme em um amontoado de decisões contraditórias e ocasionalidades exauríveis. Esquecendo-se do principal elemento dos filmes de suspense psicológico – a tensão como entretenimento -, o longa é decepcionante por não ousar onde deveria e por ousar demais onde não poderia, deixando um acre gosto de frustração no momento em que os créditos finais rolam pela tela.


