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Crítica | Raya e o Último Dragão – Desenho da Disney é um nugget estufado com muita aventura e pouca história


Desde que o projeto ‘Raya e o Último Dragão’ foi noticiado pela Disney, a expectativa foi lá em cima. Seria ela a nova princesa do castelo encantado? Ela conseguiria superar o recente lançamento ‘Soul’, indicado ao Globo de Ouro? Então, veio o anúncio da produtora de que o filme seria lançado simultaneamente na plataforma dela, a Disney+, e nos cinemas, o que gerou repercussão: algumas distribuidoras se recusaram a exibir o longa e os assinantes da plataforma acharam um absurdo ter que pagar um extra de R$69,99 para poder assistir ao filme na data de lançamento “antecipado” na plataforma. Com tanto bafafá, o resultado de ‘Raya e o Último Dragão’, no final das contas, é um nugget: um filme em que se enfiou um monte de coisa nada a ver para gerar um sabor gostosinho e de fácil digestão.

Quando criança, Raya (Kelly Marie Tran, na voz original) e seu pai, Benja (Daniel Dae Kim) tinham a esperança de reunir os cinco povos para voltarem a ser uma só nação: Kumandra. Isso havia acontecido mais de 500 anos antes, quando humanos e dragões conviviam pacificamente, até que, um dia, forças tenebrosas ameaçaram o território, e, na tentativa de salvar a humanidade, os dragões dividiram seus poderes e criaram uma joia única, guardada com rigor pela família de Raya. Então, ao reunir os cinco povos na tentativa de pedir que, se confiarem uns nos outros, o território poderá voltar a ser Kumandra, o plano de Benja dá muito errado, pois os líderes dos outros povos disputam a joia e acabam partindo-a em cinco pedaços, fazendo renascer das trevas a grande ameaça que transformou os humanos em estátuas de pedra. Seis anos se passaram, Raya é agora uma jovem guerreira solitária com um único objetivo: encontrar Sisu (Awkwafina), o lendário último dragão, na esperança de que ele traga de volta o equilíbrio da terra.



A estrutura narrativa de ‘Raya e o Último Dragão’ é esquisita, pois apresenta todo esse plot em menos de dez minutos sem aprofundar nada, nem a tal lenda dos dragões nem os personagens principais. Assim, começamos a aventura de Raya sem nem saber direito o que ela quer da vida. Com uma história criada por oito pessoas e o roteiro assinado por Qui Nguyen e Adele Lim, o enredo do longa foca mais em transformar Raya numa espécie de caçadora de recompensas, indo de lugar em lugar atrás dos pedaços da joia, encontrando pessoas e adversários no meio do caminho e sem se deter muito em cada lugar. É só isso mesmo.

Assim, o que o filme dirigido por Don Hall e Carlos López Estrada acaba apresentando ao espectador é uma sequência de mini aventuras para encher a tela grande do cinema, com o intuito de vender jogos de videogame e de fazer a protagonista parecer uma grande guerreira. A estética da primeira parte do filme lembra muito a técnica utilizada na animação ‘Clone Wars’, do universo de ‘Star Wars’ – que, aliás, parece ter sido a inspiração da produção, que criou um tatu-bola que corre como o BB-8, elaborou um deserto como o do Anakin e apresentou sequências de perseguição dignas do universo de George Lucas. Já na parte final, temos um possível easter-egg com uma cidadã igualzinha à vovó Coco, de ‘Viva – a Vida é uma Festa’, a mesma locação da floresta de Arendelle e um cenário beeeem semelhante ao de Asgard, lar de Thor e Loki.

Raya e o Último Dragão’ é um filme bem razoável, com pouca história, muita aventura e uma forma entediante de apresentar sua proposta. A Disney não traz nada de inovador nesta produção, pelo contrário, parece reciclar seus personagens – Moana, Detona Ralph e Vanellope , Miguel –, jogar no mix uma pitada de ‘Kung Fu Panda’, pegar os cenários de ‘Star Wars’ e pedir pra gente gostar desse trabalho de corte-colagem. Pouco cativante e com uma mensagem fraquinha, não deve nem vender bonecos.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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