A Inglaterra passa por uma crise de saúde sem precedentes quando remédios básicos estão em falta nas prateleiras das farmácias, compelindo tanto o povo quanto o parlamento a demandarem respostas da primeira-ministra britânica Abigail Dalton (Suranne Jones). As crescentes tensões a compelem a se reunir com a presidente da França Vivienne Toussaint (Julie Delpy), que, em troca do fornecimento dos medicamentos, deseja controle de dois pontos estratégicos no litoral inglês a fim de manejar a chegada de refugiados de guerra. Navegando por uma corda bamba, Abigail se vê em um beco sem saída quando seu marido é sequestrado por terroristas – e Vivienne, por sua vez, não pode ajudá-la por ter sido chantageada a ter um obscuro segredo revelado.
Essa é a enervante atmosfera de ‘Refém’, a nova minissérie original da Netflix. Contando com cinco episódios, a produção chegou nos últimos dias ao catálogo da plataforma de streaming – e provou que, quando bem estruturadas, narrativas bastante familiares e conhecidas ainda têm o poder de nos guiar em uma sólida e honesta jornada pelos trâmites das conspirações políticas, das engrenagens que regem a sociedade e das forças disruptivas que singram entre o extremismo desenfreado e a necessidade de revolução. E, apesar de alguns momentos fabulescos e quase utópicos, o resultado é aprazível o suficiente para nos entreter com constantes reviravoltas e belíssimas atuações de um elenco de peso.
A verdade é que a sinopse da atração é propositalmente enganosa: a princípio, o showrunner e roteirista Matt Charman, que já esquadrinhou o gênero político delineado pela minissérie no ótimo ‘Ponte de Espiões’ (e que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar), nos faz acreditar que o resgate do marido da primeira-ministra, Alex (Ashley Thomas), e a polêmica sexual envolvendo Vivienne e seu enteado, o jovem ativista Matheo Lewis (Corey Mylchresst), serão os únicos arcos a serem explorados ao longo dos capítulos. E, enquanto propositalmente aposta fichas em convencionalismos um tanto quanto entediantes, ele, às escondidas, alimenta twists que se transformam um thriller qualquer em uma instigante zona de guerra ideológica e física.
Pouco a pouco, os riscos tomados por Abigail e Vivienne escalam a níveis catastróficos que revelam as falhas de seus respectivos governos e que colocam em voga temas que, traduzidos para a realidade, permeiam mecanismos tão intrincados que se perdem em tantas burocracias e decisões errôneas. E, enquanto trilhamos um caminho farsante, as diretoras Isabelle Seib e Amy Neil dividem o comando dos episódios para garantir o máximo de aproveitamento por parte dos espectadores e conduzir o enredo de maneira astuta para que cada reviravolta faça sentido – e que, mesmo tropeçando aqui e ali, o resultado seja aprazível o bastante para nos satisfazer.
Um dos elementos de maior sucesso da atração é, sem sombra de dúvida, o talento do elenco: os atores coadjuvantes não apenas servem como base para explorarmos as complicadas vidas de Abigail e Vivienne, mas carregam consigo arcos que, dentro do espectro proposto pela minissérie, auxiliam no ritmo e no andamento dos eventos. Dessa forma, Thomas e Mylchreest são acompanhados pela presença magnífica de Lucian Msamati como Kofi Adomako, Chefe de Gabinete da primeira-ministra; James Cosmo como Max Dalton, pai de Abigail que está terminalmente doente e se torna alvo de forças malignas; Jehnny Beth como Adrienne Pelletier, a misteriosa Secretária-Geral da presidente francesa; e muitos outros.
Todavia, Jones e Delpy são as que roubam os holofotes e nos encantam com atuações tão bem construídas que não ficaria surpreso que ambas as atrizes chamassem certa atenção para a próxima temporada de premiações. Jones navega pela frieza britânica de um membro do parlamento e que precisa deixar as emoções e os impulsos de lado para tomar decisões corretas e navegar pelas atribulações de seu trabalho, dos colegas que querem derrubá-la e de terroristas que desejam Abigail fora do cargo em uma vendeta pessoal e mortal; Delpy, por sua vez, faz um glorioso retorno ao circuito seriado após seu trabalho em ‘On the Verge’, firmando a personalidade controversa de Vivienne em uma performance que preza pelas sutilezas e pela inegável química de que desfruta com o restante do elenco.
Ainda que cada título original anunciado pela Netflix nos deixe com um pé atrás, ‘Refém’ se configura como uma sólida tentativa que funciona em quase sua completude – e que, dentro do gênero de suspenses conspiratórios, entra para a lista dos melhores do ano. Através do comprometimento significativo das partes envolvidas, a série limitada nos apresenta a nuances bem estruturadas que sabem dosar a comodidade e a ambição de maneira fabulosa.
