sábado, fevereiro 7, 2026
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Crítica | Reservation Dogs – A Cura do Passado é Tema Para Linda (e Provável) Última Temporada de Série Indígena





Todas as coisas, boas e ruins, refletem na gente, na nossa vida. As boas tendem a deixar uma sensação de bem-estar na alma, um sorriso no rosto e um quentinho no coração. As ruins, entretanto, deixam uma sombra em nosso espírito, um peso que nos puxa para baixo, e, com o passar do tempo, a escuridão e o peso do ocorrido vai se tornando insuportável, e consequências vão desde o afastamento de todos até o fim antecipado da própria vida. Mas, bem antes de tudo isso acontecer, é preciso estar atento aos próprios sentimentos, para, o quanto antes, buscar a cura dos males ocorridos; sobre isso, as culturas indígenas têm uma sabedoria especial, e esse é o mote para a segunda – e hilária – temporada da sérieReservation Dogs’.

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Depois que Elora (Devery Jacobs) deixou Bear (D’Pharaoh Woon-A-Tai) para trás e fugiu com Jackie (Elva Guerra) para a Califórnia, o equilíbrio dos Rez Dogs ficou completamente abalado. Bear, com muito rancor da amiga, decide procurar um emprego e se tornar um adulto responsável; Cheese (Lane Factor) se aproximou de seu tio e tem passado mais tempo com ele; por isso, Willie Jack (Paulina Alexis) é a que mais sente o afastamento do grupo, e busca todas as formas de retomar a cumplicidade que tinham antes de tudo desmoronar. Nessa jornada pessoal e coletiva, os Rez Dogs vão aprender valores importantes, principalmente o da amizade e o da coletividade.

Se a primeira temporada de ‘Reservation Dogs’ já tinha sido incrível, a segunda parte é simplesmente linda. Os dez episódios de aproximadamente trinta minutinhos cada consegue balancear bem o aprendizado individual de cada um dos quatro adolescentes e jogar foco na história pessoal dos adultos, afinal, os passados deles também influenciam na vida da atual geração de jovens indígenas na aldeia urbana em que vivem.

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Criada por Sterlin Harjo e Taika Waititi, o grande acerto em ‘Reservation Dogs’ é a sensibilidade com que trata os temas, tratando-os com naturalidade para um público que, em sua maioria, é distante das culturas indígenas. Na prática isso significa que a série – centrada em quatro adolescentes cujo sonho é realizar a última vontade de um amigo falecido (ir para a Califórnia) -, atravessa situações comuns a qualquer adolescente, o que aproxima o público à realidade da juventude indígena – com as mesmas inquietações, mesmos dramas, mesmas dificuldades comuns a esta idade em qualquer etnia ou raça.

Soma-se a isso o fato de nesta segunda temporada, para além de aprofundar os personagens já apresentados anteriormente e suas motivações, dessa vez ‘Reservation Dogs’ foca nas formas como esses personagens vão se curar dos assuntos não resolvidos em suas vidas – e todas as soluções passam por ações coletivas, sabedoria ancestral, conhecimento originário e atitudes que têm a ver com despir-se da ocidentalidade e se voltar para as próprias raízes. Todas as cenas são feitas não de maneira impositiva, acusatória, mas sim com muito humor e zoação, de modo que as “lições” são passadas através de experiências práticas – que é exatamente a forma como as culturas indígenas passam suas sabedorias.

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Através do humor e do amor, Sterlin e Taika criaram uma obra deliciosa para todos os públicos, encabeçadas por quatro adolescentes que simbolizam demais a juventude atual, com destaques para os adoráveis Lane Factor e Paulina Alexis, cada um com seu jeitinho típico. ‘Reservation Dogs’ fala da branquitude e também da auto-estima indígena, dialogando com todos os públicos para que possamos todos respeitosamente conviver. Uma série adorável que, mesmo com 98% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota 8,1 no IMDB, o futuro ainda é incerto, e chegou silenciosamente aos assinantes da Starplus no fim do ano.

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Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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