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Crítica | ‘Rita Lee: Mania de Você’ é um tocante documentário que explora a rainha do rock nacional de forma nua e crua


Rita Lee é um dos maiores e mais importantes nomes da história da arte nacional – responsável por criar inúmeras tendências comportamentais que entraram em conflito com a retrógrada e tradicionalista e que serviriam de inspiração para incontáveis artistas de gerações subsequentes. Não é surpresa que, através de sua carreira como parte da banda Os Mutantes e trilhando caminho solo, ela tenha se sagrado como a rainha do rock brasileiro e deixado um legado insuperável e que é comemorado até mesmo fora do nosso país.

A saudosa cantora, compositora e musicista nos deixou em 2023 e, mesmo dois anos depois de seu falecimento, ainda deixa saudades com sucessos atemporais – e, como forma de uma contínua homenagem, ganhou um longa-metragem documental que chegou recentemente ao catálogo da Max. Intitulado Rita Lee: Mania de Você’, em referência direta à clássica música da performer, o longa-metragem é uma cândida exploração não apenas de seu estrelato, mas de uma vida marcada por altos e baixos e que sempre foi vivida com muito amor e liberdade. Desdobrando-se ao longo de noventa minutos que passam em um piscar de olhos, o projeto comandado por Guido Goldberg é uma carta de amor à Lee e uma celebração de tudo o que deixou para uma legião de fãs que atravessa barreiras e gerações.

O filme tem como base uma belíssima carta que Rita deixou a seus três filhos e ao marido e parceiro criativo Roberto de Carvalho – e, a partir daí, o enredo se ramifica em idas e vindas numa linha do tempo que rompe os moldes da cronologia para glorificar o próprio pensamento dessa titânica artista. Afinal, Lee ficou conhecida por não se restringir a nenhuma norma e por quebrar padrões estéticos e ideológicos – motivo pelo qual foi perseguida pelos oficiais da Ditadura Militar, tornando-se alvo em virtude de letras com duplo sentido e que promoviam um afronte “à moral e aos bons costumes”.



Goldberg faz um ótimo trabalho ao reafirmar a longevidade de Rita e ao se afastar dos convencionalismos de docs biográficos, seja no formato como a história é contada, seja no comprometimento técnico e estético empregado. Cada uma das entrevistas, que incluem jornalistas, amigos próximos à artista como Ney Matogrosso e produtores, encaixa perfeitamente com declarações dadas pela performer em incontáveis programas de televisão e até mesmo em discursos feitos em seus espetáculos. É dessa maneira que o realizador promove uma perspectiva nova a produções do gênero, unindo passado e presente em um fio único que atenua essa costumeira divisão – e o resultado não é algo apenas informativo, mas honesto o suficiente para nos arrancar lágrimas à medida que a narrativa se desenrola.

Diferente do que podemos imaginar, o propósito do documentário não é humanizar a rainha do rock, visto que ela sempre mostrou sua humanidade das maneiras mais diversas – abrindo espaço para discussões polêmicas que envolviam o papel da mulher na sociedade e como a disparidade de gênero era algo recorrente na estrutura social (ora, não é por qualquer razão que Lee tenha sido a primeira líder de uma banda de rock no Brasil), além de discursos sobre o uso de drogas, homossexualidade, autoritarismo e tantos outros. Lee, inclusive, foi presa – e tratada como uma pária social que não tinha espaço em um lugar marcado pela censura e pela repressão. E, com o documentário, somos convidados a entender como clássicos de sua discografia nasceram e popularizam em meio aos ouvintes – como “Lança Perfume”, “Obrigado, Não”, “Amor & Sexo”, “Ovelha Negra” e tantas outras.

Como já mencionado, o filme mergulha nos altos e baixos da vida pessoal e profissional de Rita, mostrando de que forma ela se rendeu ao álcool e às drogas e como precisou passar por uma experiência de quase morte para entender que precisava de ajuda e se recuperar da melhor maneira – ainda mais com a chegada da primeira neta, Izabella Lee, filha de Beto Lee. E, reafirmando a imperfeição sobre a qual a artista sempre falou abertamente, é perceptível como Goldberg singra sem problemas e com o coração no lugar certo pelos bastidores de um dos nomes mais conhecidos do cenário do entretenimento – e sagra ‘Mania de Você’ como uma das melhores investidas nacionais do ano.

Lembrando que o filme já está disponível na Max.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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