sábado, fevereiro 7, 2026
InícioCríticasCrítica | Roda Gigante – Kate Winslet soberba em novo filme de...

Crítica | Roda Gigante – Kate Winslet soberba em novo filme de Woody Allen





A Mulher Irracional

Roda Gigante, teu nome é Kate Winslet! O icônico Woody Allen possui graves problemas relacionados a mulheres que passaram por sua vida. Justamente por isso, o autor octogenário canaliza tão bem e transforma suas experiências pessoais em textos complexos e personagens tão intrincados, que conseguem resumir em detalhes por duas horas, anualmente, a essência humana. O que Allen cria também é uma fábrica de personagens femininas tão bem escritas e elenca perfeitamente suas intérpretes, terminando por, muitas vezes, encabeçarem indicações (e na metade das vezes saírem vitoriosas).

- Publicidade -

Nessa trajetória de parcerias vitoriosas se encaixam as defesas de Cate Blanchett (Blue Jasmine), Penélope Cruz (Vicky Cristina Barcelona), Mira Sorvino (Poderosa Afrodite), Dianne Wiest duplamente (Tiros na Broadway e Hannah e Suas Irmãs) e Diane Keaton (Noivo Neurótico, Noiva Nervosa). Nesta seleta lista em breve poderá constar o nome de Kate Winslet, a protagonista de Roda Gigante, novo trabalho do prestigiadíssimo cineasta.

Que Woody Allen fala com todo tipo de público todos já sabem – desde os esnobes amantes do cinema de arte até os que curtem cinema de maneira mais despretensiosa – e que mesmo seus chamados “filmes menores” conseguem comunicar mais substância do que grande parte do que é feito na sétima arte também. Partindo dessa premissa, temos uma atriz protagonizando com a força de um furacão (pense em Cate Blanchett em Blue Jasmine), num filme que talvez não a acompanhe o tempo todo, rendendo dilemas próximos aos de O Homem Irracional (2015) – considerado um esforço menor do diretor.

A história guarda uma leve reviravolta, que de alguma forma já havia vazado nas prévias – eu inclusive já imaginava antes de ter assistido – mas que de forma alguma diminui o valor da dramaticidade proposta. De qualquer forma, seria bom evitar qualquer trailer, se possível. E neste sentido, o citado Homem Irracional (2015) foi dono de uma campanha de marketing melhor estruturada a fim de resguardar sua grande surpresa.

- Publicidade -

Na trama, Kate Winslet interpreta Ginny, aspirante a atriz que termina como garçonete devido a uma indiscrição matrimonial. A mulher perde também o grande amor de sua vida, restando a criação solitária do pequeno rebento, o incendiário Richie (Jack Gore) – um dos destaques da obra. Isto é, até conhecer o mecânico Humpty (ótima performance de Jim Belushi, que igualmente pode render uma lembrança na época de prêmios), um homem bruto e de gostos simples. O companheiro é uma segurança, mas guarda zero afinidade intelectual com a sonhadora protagonista. Justamente por isso, ela rapidamente se afeiçoa e começa um caso com o salva-vidas Mickey (Justin Timberlake), estudante universitário fascinado por literatura e artes cênicas.

O passado de Giny volta a se repetir, mostrando o quanto o ser humano é refém do incontrolável, de paixões e de sensações, afinal é o que nos mantém espiritualmente vivos. A razão, bem, essa quase sempre fica em segundo plano. Conciliar as duas é um exercício impreciso e quase irrealizável. Como se já não bastasse tal peso na consciência da mulher, o que, mais uma vez assim como a personagem de Blanchett no filme de 2013, a causa uma intolerável enxaqueca, o jogo muda consideravelmente com a chegada de Carolina (Juno Temple), a filha de Humpty. O casamento dela com um criminoso, desaprovado pelo pai, chegou ao fim de forma preocupante, e agora a jovem tem sua cabeça a prêmio.

Fora isso, Blue Jasmine e Roda Gigante guardam semelhanças em suas tragédias narrativas e teatralidade. Enquanto o primeiro era declaradamente uma reimaginação da peça Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams; o segundo tampouco se desfaz da insanidade humana – nestes casos feminina – quando as feridas abertas apontam a traição de sentimentos e a busca ferrenha por estabilidade ou mudança. De fato, Allen transita como poucos em obras satisfatoriamente agridoces, pendendo variavelmente para o humor ou drama. Este reserva grande amargor.

- Publicidade -

Inconscientemente, propositalmente ou subliminarmente todo artista é reflexo de sua obra. E embora Woody Allen seja um artista mais do que estabelecido, que não precisa provar nada para ninguém, e ainda que saibamos que suas ideias para produções cinematográficas estejam todas dentro de uma gaveta, escritas há anos (quem viu o documentário sobre o autor entenderá), um roteiro no qual a protagonista deseja se livrar da enteada corre perigosamente muito próximo a uma verdade sombria…

- Advertisement -

Não deixe de assistir:

Assista TAMBÉM:

LEIA MAIS

MATÉRIAS

CRÍTICAS