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Crítica | Rodrigo Aragão nos convida aos labirínticos corredores do Edifício Magdalena com o terror ‘Prédio Vazio’


Em Prédio Vazio, o cineasta Rodrigo Aragão nos convida para acompanhar a insana jornada de Luna (Lorena Corrêa), uma jovem que, após receber uma ligação estranha da mãe (Rejane Arruda), resolve partir de Belo Horizonte para a idílica cidade de Guarapari para entender o que está acontecendo e, ao que tudo indica, salvá-la de algum problema em que tenha se metido. Porém, ao chegar lá, Luna percebe que as coisas são muito piores do que imagina – e que, talvez, ela não consiga sair de um labiríntico e antigo edifício à beira da praia com vida.

O longa de terror funciona como uma espécie de celebração da própria vida do diretor, que nasceu na cidade em questão e tem um apreço significativo em colocar suas histórias ambientadas na terra natal. Aqui, ele constrói uma ambiciosa mitologia que bebe dos clássicos contos de fantasmas e que nos leva ao Edifício Magdalena, palco de uma narrativa sangrenta e recheada de traumas que acompanha não só Luna, mas cada uma das infelizes almas que adentrou o claustrofóbico prédio e se viu frente a uma derradeira ruína – não é surpresa, pois, que Aragão nos bombardeie com inúmeras sequências que detalham a morte de algumas das vítimas.



O problema maior do projeto é não saber exatamente o que se fazer ao longo de quase uma hora e meia de duração: de um lado, temos cenas fragmentadas que, a priori, deveriam servir como base para fomentar essa mitologia defendida por Aragão (responsável, também, pelo roteiro), mas soam como pedaços de curtas-metragens cujo único objetivo é preencher buracos; de outro, a incansável jornada de Luna em busca da mãe soa como uma motivação falsa, visto que ela deixa a entender que não tem uma relação muito próxima da mãe (“Nossa, minha filha me ligou. Agora meu dia ficou melhor”, diz a personagem de Arruda logo no primeiro ato) e, mesmo assim, é taxada com uma irrefreável obsessão por ajudá-la (como aponta Caio Macedo, intérprete do namorado de Luna).

Há várias incongruências que mancham a estrutura do filme, e não me refiro apenas aos furos no roteiro, e sim a outros aspectos: honestamente, senti-me assistindo a um projeto de faculdade de baixo orçamento e com atores improvisados, que não se sentem bem ao interpretar os personagens que lhe foram destinados. A química entre Corrêa e Macedo é inexistente, e ambos se esquecem da primeira regra da atuação – a ação e a reação. Em incontáveis momentos, há uma longa pausa entre as falas de ambos que causa desconforto constante no público, como se tivessem dificuldade para se recordarem das falas; enclausurados em performances monotônicas e quase risíveis, ao menos Corrêa consegue se desvencilhar da completa apatia conforme entre no ato final e tem mais cenas ao lado de Arruda (que faz o melhor que pode dado as circunstâncias).

Gilda Nomacce, que interpreta a psicótica zeladora Dora, é um ponto de frescor em meio a tantos equívocos enfrentados pelo filme – mas, mesmo assim, é mal aproveitada e retirada do brilho que traz às telonas por uma fraca montagem de Thiago Amaral. Por vezes, a edição e a direção tomam rumos surrealistas e fabulescos, nos convidando para uma história fora do espaço e do tempo e que bebe de clássicos filmes-B de terror dos anos 1980. Todavia, Aragão e sua equipe não abraçam o non-sense por completo, singrando em uma corda-bamba perigosa que não tem qualquer propósito – e que, indiretamente, impactam no desenvolvimento do arco de Dora e de sua inebriante vilania de serial killer.

Ao menos a identidade artística sabe como se portar, prestando homenagens a nomes como George A. Romero através de efeitos práticos e próteses assustadoras destinadas aos mortos que assombram o Edifício Magdalena, e a Dario Argento com uma exagerada e fervilhante paleta de cores – que mescla cores opostas em um vibrante jogo de gato e rato. Em outras palavras, o diretor de fotografia Alexandre Barcelos e a diretora de arte Priscilla Huapaya unem forças para claras homenagens a títulos ‘Suspiria’, ‘Uma Noite Alucinante: A Morte do Demônio’ e ‘Despertar dos Mortos’, apostando fichas em um escape visual que tenta, cena a cena, nos desviar do cansativo e inexplicável enredo que se desenrola.

Prédio Vazio tem uma clara ideia para apresentar ao público e procura trazer elementos novos a um gênero que ainda não é tão explorado como poderia no cenário audiovisual nacional. Entretanto, as boas intenções “saem pela culatra” ao, eventualmente, emergir como uma grande festividade de vários nadas que se completam em um vazio impalpável e um gosto de frustração que nos acompanha por bastante tempo depois de termos deixado a sala de cinema.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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