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Crítica | ‘Rua do Medo: Rainha do Baile’ é um esquecível slasher que não tem muito a dizer


R.L. Stine é um dos autores mais celebrados das últimas três décadas, tendo sido responsável pela popularização do terror jovem-adulto com sagas de romances instigantes e que caíram no gosto do público e da crítica, como ‘Goosebumps’. Tendo um legado tão extenso quanto seu conterrâneo, Stephen King, Stine é um dos principais nomes de um gênero que continua a sofrer mudanças com o passar dos anos e, por essa razão, é costume que várias de suas obras sejam levadas para a televisão e para os cinemas. E, em 2021, a Netflix resolveu dar vida a um ambicioso projeto que se dividiria em três filmes: Rua do Medo.

Puxando os melhores elementos da saga mais famosa de Stine, a trilogia reavivou nosso interesse por produções slasher justamente por fornecer uma perspectiva mais “contemporânea”, por assim dizer, sem deixar tropos do terror de fora – como o suspense gore de ‘1994’, as clássicas referências a ‘Sexta-Feira 13’ e ‘A Hora do Pesadelo’ com ‘1978’, e os arrepiantes contos de Salem que foram transpostos para ‘1666’. Ao abraçar esses familiares clichês, as engrenagens funcionaram com fluidez aplaudível – e que compeliu a plataforma de streaming a aceitar um claro risco com o anúncio de Rua do Medo: Rainha do Baile’.



Inspirado no romance homônimo lançado em 1992, a trama nos leva para os anos 1980 e para a misteriosa cidade de Shadyside que, como bem sabemos, é antro para acontecimentos trágicos e acidentes bizarros que a transformam na capital da morte – e sob constante subjugação da cidade vizinha, Sunnyvale. E, nesta nova empreitada, os alunos do colégio local estão se preparando para o aguardado baile de formatura, principalmente Lori Granger (India Fowler), uma jovem quieta e introspectiva que vive dia após dia tentando esquecer marcas profundas de um passado não muito distante em que todos acreditam que sua mãe é uma assassina tresloucada. Porém, as coisas não saem como o planejado, visto que Lori é constante alvo da mean girl Tiffany (Fina Strazza), a garota mais popular do colégio e a favorita para ser coroada Rainha do Baile.

Ainda que tenha Megan (Suzanna Son) como sua melhor amiga, que a defende a todos os momentos de um constante bullying, Lori gostaria de se sentir abraçada por seus colegas apenas uma vez na vida – motivo pelo qual tenta fazer sua “campanha” para conseguir a coroa. Entretanto, quando chega a noite do baile, as candidatas à Rainha começam a desaparecer sumariamente, fruto de um massacre orquestrado por serial killers mascarados que não pensam duas vezes antes de manchar os corredores da escola com sangue e gritos. Logo, cabe a Lori sobreviver à noite, rezando para que ninguém mais se torne vítima dos assassinos e conseguindo voltar para casa a salvo.

Dirigido por Matt Palmer, o longa mantém-se fiel à identidade explorada na trilogia original, garantindo que os clichês existam em reformulações propositais e que celebrem uma das décadas mais famosas do terror slasher na sétima arte. Há menções gritantes a incursões como ‘Carrie, a Estranha’ e ‘Baile de Formatura’, uma trilha sonora nostálgica e envolvente que inclui sucessos atemporais como “Never Gonne Give You Up” e “Gloria”, e uma paleta de cores que mistura o tradicionalismo dos bailes de formatura ao neon vibrante. E, enquanto a estética é clara, é notável como o fraco enredo não consegue nos convencer de que esta é uma história digna de pertencer ao universo de Shadyside, saindo de lugar nenhum e chegando a nenhum lugar com uma completa falta de originalidade.

Enquanto Palmer foca na parte imagética do projeto, esquece-se de fazer um trabalho tão bom quanto no roteiro, que co-assina com Donald McLeary. De fato, percebemos que os icônicos elementos da narrativa de Stine são deixados de lado para dar espaço a pontadas de dramas interpessoais e arquétipos de qualquer filme ambientado em um colégio das últimas quatro décadas; mesmo a aparição dos serial killers e a motivação por trás do massacre não são críveis o suficiente para reiterar o espectro sobrenatural que se eternizou em Shadyside, com exceção, talvez, da psicopatia que assombra a cidade.

Não há muito de novo a se ver na conhecida fotografia de Márk Györi ou no arranjo de cordas do grupo The Newton Brothers, que apoia-se em John Carpenter para reconstruir um modelo de ‘Halloween’. Mesmo assim, o elenco se diverte através de performances canastronas e quase novelescas, que reiteram o teor inofensivo e despojado do filme, com destaque a Strazza, Ariana Greenblatt em uma breve aparição como a rebelde Christy Renault, e Katherine Waterston como Nancy, a psicótica mãe de Tiffany que esconde suas verdadeiras intenções atrás de uma máscara de dona de casa perfeita. Algumas atuações não têm o mesmo peso das protagonistas dos capítulos anteriores, mas ainda fazem um trabalho considerável dentro das múltiplas falhas.

Rua do Medo: Rainha do Baile’ peca por nem sequer conseguir utilizar os convencionalismos de gênero a seu favor, afastando-se do claro pot-pourri ofertado pela trilogia original e focando em uma história que não tem muito a dizer além do óbvio.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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