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Crítica | ‘Ruas da Glória’ – A essência humana e seus impulsos sob uma tensão sexual sufocante [Festival do Rio 2025]


A vida como ela é. Percorrendo um relacionamento destrutivo e contrapondo o fascínio de um novo lugar e suas tragédias que logo se mostram presentes, o longa-metragem Ruas da Glória, escrito e dirigido por Felipe Sholl, apresenta um certo lirismo – uma metáfora que percorre emoções e sensações ligadas ao desespero, alcançando as dores quando o caos da existência se mostra angustiante.

Sempre envolta no tema, a narrativa cumpre seu propósito ao maximizar a ebulição dos sentimentos, com cenas carnais bem dirigidas – mais explícitas que sugeridas – atingindo a essência humana e seus impulsos em meio a uma tensão sexual sufocante. O desejo se alia ao desespero, elementos emocionais fundamentais para os pilares dos complexos personagens, muito bem interpretados por Caio Macedo e Alejandro Claveaux.



Gabriel (Caio Macedo) é um jovem professor de literatura que acaba de chegar ao Rio de Janeiro, após um falecimento e um conflito com parte da família, experiências que mexeram com suas emoções. Fascinado pela cidade maravilhosa, muda-se para o bairro da Glória e, numa noite em um badalado clube, acaba conhecendo o uruguaio Adriano (Alejandro Claveaux), que vive da prostituição. Completamente obcecado por Adriano, Gabriel se entrega de corpo e alma em um complexo relacionamento. Quando Adriano desaparece, o protagonista, buscando um drible na solidão, vai conhecendo novos personagens pelo caminho e encontra significativas reflexões sobre a vida.

O roteiro percorre um recorte complexo da autodestruição, onde o desejar se torna uma importante parte das reflexões. Podemos nos perguntar: estamos vendo o amor, a obsessão ou ambas as coisas? Essa fuga de paradigmas, dentro da explosão de infelicidade proposta, nos leva a pensar sobre os obstáculos que, cada um de sua forma, passam alguma vez (ou várias) na vida – um dos méritos da obra. Contudo, há um calcanhar de aquiles (não comprometedor): a falta de respiro dentro desse recorte extenuante flerta com avanços pouco significativos, beirando ao repetitivo, o que, de certa forma, atrapalha o andamento.

Crédito: Ira Barillo
Crédito: Ira Barillo

O desespero, o sufocar, as dores de um momento repleto de portas fechadas. Ruas da Glória apresenta uma estrada destrutiva, marcada por altos e baixos, descobertas e revelações, com a esperança surgindo como um trunfo quando a maré vira – algo mundano, humano e capaz de fazer refletir.

Raphael Camachohttps://guiadocinefilo.blogspot.com.br
Raphael Camacho é um profissional com mais de 20 anos de experiência no mercado cinematográfico. Ao longo de sua trajetória, atuou como programador de salas de cinema, além de ter trabalhado nas áreas de distribuição e marketing de filmes. Paralelamente à sua atuação na indústria, Raphael sempre manteve sua paixão pela escrita, contribuindo com o site Cinepop, onde se consolidou como um dos colaboradores mais antigos e respeitados deste que é um dos portais de cinema mais queridos do Brasil.
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