Cada cidade tem histórias intrínsecas em suas ruas, suas esquinas, suas paredes. No Rio de Janeiro, há bairros que possuem séculos de histórias, permeando importantes personalidades e épocas da história do país, como é o caso do bairro da Glória, importante ponto de abastecimento de tropeiros, próximo ao antigo palácio da república e de muitos ministérios, na frente do bairro da Lapa e todos os cortiços onde muitos famosos artistas alugaram quartos. Mas há ali também uma vida noturna intensa, que só quem vive nos arredores conhece. É essa história, de quando o sol se põe e os personagens da noite surgem, que permeia o longa brasileiro ‘Ruas da Glória’, que chega aos cinemas no próximo dia 2 de abril.

Gabriel (Caio Macedo, de ‘Prédio Vazio’) acaba de se mudar para o Rio de Janeiro após o falecimento de sua vó. Longe de casa e da família, ele tenta respirar e ser quem é pela primeira vez na vida. Na nova cidade, aluga um apartamento no bairro da Glória, onde descobre uma intensa vida noturna nos bares gays das redondezas. É ali que conhece Adriano (Alejandro Claveaux, de ‘Rensga Hits!’), um sedutor garoto de programa que encanta a todos os frequentadores. Quando finalmente consegue ficar com Adriano, rapidamente o envolvimento amoroso se desenvolve em um relacionamento mais intenso, diário e ritmando pelo sexo. Mas, tudo que vem de forma intensa na vida, pede seu preço, por isso, nessa nova vida, Gabriel será obrigado a fazer importantes escolhas, e todas terão consequências.
Escrito e dirigido por Felipe Sholl (que colaborou no roteiro de vários sucessos) e baseado em experiências pessoais do próprio, ‘Ruas da Glória’ é um filme intenso, passional e bastante carnal. É tanto sentimento envolvido na trama que pulsa na tela, envolve o espectador e nos faz entrar naquela história, respirar aqueles cheiros, sentir aqueles bafos. Essa sensação é fruto não apenas da boa história do enredo mas, também (ou talvez acima de tudo) pela comunhão do excelente trabalho do diretor de fotografia Leo Bittencourt (que operou a câmera em ‘Os Outros’) que leva sua câmera para perto da relação dos protagonistas, por entre as ruas do bairro, para o fundo do poço onde muitos dos personagens se encontram. Ótimos ângulos, ótimas escolhas de posicionamento de câmera favorecidas por uma iluminação bem natural. Como se vê, um acerto inteligentíssimo do produtor Daniel Hoogstraten, da Syndrome Films, que reuniu uma equipe competente e acreditou na potência dessa história.

Fator impressionante também é a química entre o casal protagonista, Gabriel e Adriano – aquele, um jovem tímido, fragilizado, confuso e sozinho; este um imigrante igualmente sozinho, sobrevivente, com camadas e mais camadas para se proteger nesse mundo selvagem. Do encontro de dois personagens tão dicotômicos, nasce um amor carnal, emotivo, intenso, pulsante. O famoso “amor de p!c@, quando bate, fica”. É nesse ponto que Gabriel, o frágil, se torna Gabriel, o obcecado, e sua história se transforma numa urgência de viver que bebe em fontes de grandes mestres da literatura homoerótica, como Oscar Wilde e Baudelaire. Adriano, esse dândi, esse flaneur uruguaio que se escorrega pelos becos da cidade pousando de quarto em quarto apresenta o cenário grotesco e hipnotizante dos garotos de programa que batem ponto nas ‘Ruas da Glória’ e da Cinelândia. Um retrato de uma cidade que, também neste quesito, está mudando.
Quem nunca passou por uma rejeição e deu uma obcecada numa outra pessoa? É neste sentimento comum a todos nós que ‘Ruas da Glória’ encontra diálogo com o grande público, para além do público queer. Porque o filme pode ter ganhado os Prêmios Redentor de Melhor Ator Coadjuvante e Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio e ter sido exibido em tantos outros festivais, mas ‘Ruas da Glória’ é uma história de amor e obsessão, de luxúria e desespero, de vida e solidão – sentimentos comuns a todos nós, pessoas que se entregam de corpo e alma a uma relação. Filmaço para ser experenciado na tela grande.


