Ryan Gosling tem traçado uma carreira muito interessante na indústria do entretenimento, ganhando expressiva popularidade após estrelar o romance ‘Diário de uma Paixão’ e sagrando uma filmografia que lhe rendeu nada menos que três indicações ao Oscar – incluindo pelos aclamados ‘La La Land’ e ‘Barbie’. Estabelecendo-se como um dos atores mais versáteis e prolíficos da geração, o astro tem um charme inegável que transforma cada projeto de que participa em um convite para celebrá-lo, em meio a rendições poderosas que mesclam comédia, drama e suspense de maneira invejável. E, agora, Gosling caminha para uma merecida presença na próxima temporada de premiações com ‘Devoradores de Estrelas’.
Inspirado no romance homônimo de Andy Weir, mesmo nome por trás de ‘Perdido em Marte’, o longa-metragem é centrado em Ryland Grace, um astronauta que acorda a bordo de uma espaçonave sem qualquer memória de quem é ou de como foi parar lá. Acompanhado de dois tripulantes mortos dos quais também não se recorda, Ryland tenta encontrar alguma dica do que possa estar acontecendo e, em meio a explorações pelo limitante espaço em que se encontra, ele descobre que é o único tripulante sobrevivente da equipe que viajava rumo ao sistema Tau Ceti. A missão? Encontrar algo que impeça que microscópicos seres astrofágicos causem uma tragédia de proporções astronômicas na Terra conforme se alimentam do Sol.

Porém, o protagonista logo percebe que não está sozinho: em meio à jornada para Tau Ceti, o astronauta cruza caminho com uma gigantesca espaçonave em que o único tripulante é uma criatura rochosa que apelida de Rocky (James Ortiz). Em uma improvável aliança, a dupla percebe que está em busca da mesma coisa, unindo forças e um vasto conhecimento para garantir que seus respectivos lares sejam salvos – e mergulhando em uma perigosa jornada que esquadrinha confiança, solidão e arrependimento em um glorioso épico tragicômico que já pode ser considerado um dos melhores títulos do ano.
Phil Lord e Christopher Miller, responsáveis pela ovacionada e premiada animação ‘Homem-Aranha no Aranhaverso’, comandam o projeto em uma solenidade que homenageia os grandes clássicos da ficção científica, encontrando um ponto de encontro entre o gênero e incursões cômicas e dramáticas que temperam a narrativa com uma palpabilidade imprescindível. A dupla de cineastas navega entre o conflito estético da vastidão opressora do espaço sideral e do confinamento solitário da ambição e da motivação da humanidade, “prendendo” Ryland em uma labiríntica prisão que parece fadada ao desastre. A confusão em que o personagem principal se encontra é reiterado, inclusive, pelo bombardeio de luzes neon e de uma paleta de cores dêitica, que vibra em tonalidades gritantes que denotam a beleza e a melancolia do que se vê.

Ao lado de Drew Goddard, que assina o roteiro, Lord e Miller têm uma predileção inquestionável por encontrar leveza no pesar e esperança no desalento – e isso se reitera com a presença de Rocky. De fato, percebemos como os realizadores são inclinados a remodelar os preceitos conhecidos das jornadas monomíticas, transfigurando os tropos a fim de garantir que cada membro do público se relacione com o arco moral em que Ryland está; não é surpresa que, à medida que os laços com Rocky se fortalecem, a ideia de voltar para casa se torna mais inviável a fim de garantir que aquele que o salvou mereça um final feliz.
Goddard trabalha muito bem com ambiguidades, centrando esse aspecto na narrativa não-linear que se desenrola nas telonas. Enquanto o tempo presente é focado nas incursões incansáveis do astronauta e do alienígena, o passado é pautado em uma espécie de letargia que, apesar de mobilizar os esforços das principais potências mundiais para encontrar uma solução contra os astrofágicos, soa contemplativa e complacente com uma missão incerta – e que escala Ryland, um professor de biologia, como o responsável pelo futuro do planeta. A partir daí, somos levados a imaginar se os flashes para o passado são memórias ou apenas trechos explicativos, tornando a radical mudança de personalidade do astronauta – de defensivo para altruísta – ainda mais intrincada.

A comprometimento técnico de uma vasta equipe criativa é primordial para que cada engrenagem funcione como deve, desde a evocativa e cinemática trilha sonora assinada por Daniel Pemberton, que traz elementos clássicos das soap opera para construir uma montanha-russa de sensações, até a inspiradora e irruptiva fotografia de Greig Fraser. Mais do que isso, a sinestésica experiência faz com que o filme se consolide como uma imersiva e filosófica marcha pelo que significa existir sob uma ótica poderosa e angustiante. E nada disso seria possível sem a presença de Gosling em outro papel definidor de sua carreira, trilhando uma trajetória para mais uma indicação ao Oscar, do mestre marionetista Ortiz, e de Sandra Hüller como a metódica e calculista chefe da missão de Ryland.
Enquanto Lord e Miller constroem ácidos comentários sobre a individualidade e a coletividade, eles também cuidam para que ‘Devoradores de Estrelas’ não seja apenas mais um filme qualquer de ficção científica, e sim uma primorosa carta de amor à experiência cinematográfica e à vida como ela deve ser vivida: ao máximo.
