quarta-feira, janeiro 7, 2026

Crítica | Sexa – Gloria Pires Estreia na Direção com Inspirador Filme às Sexagenárias

CríticasCrítica | Sexa – Gloria Pires Estreia na Direção com Inspirador Filme às Sexagenárias

Uma das coisas que a pandemia evidenciou é que todos nós, enquanto sociedade, precisamos olhar com mais atenção para os idosos. Foi também durante esse período (de muitas limitações) que pequenos gestos se tornaram enormes exemplos, como o da atriz Glória Pires, que durante tanto tempo interpretou mocinhas na tv e que por tanto tempo teve seus cabelos pintados para parecer mais jovem do que sua idade verdadeira – foi no período pandêmico que Glória decidiu parar de pintá-los e assumir publicamente suas madeixas grisalhas. Esse gesto, que parece simples, empoderou centenas de mulheres, de várias idades, pois, como pessoa pública, passava uma mensagem importante: abrace-se, e deixe os padrões estéticos de lado. Assim, não era de surpreender que, alguns anos depois, ela estrelasse (e dirigisse) um filme como ‘Sexa’, em cartaz nos cinemas após exibição no Festival do Rio e na Mostra de São Paulo.



Hoje é aniversário de 60 anos de Bárbara (Glória Pires) – e isso a deixa em pânico. Fixada nesse número, a coisa toda só piora quando sai para celebrar com seu filho, Rodrigo (Danilo Mesquita), e a nora, Natália (Luana Tanaka), e Rodrigo faz comentários etaristas e controladores, arruinando o jantar. Frustrada, Bárbara sai sozinha e acaba conhecendo Davi (Thiago Martins), um rapaz mais novo que se encanta por ela imediatamente. Só que Bárbara além de sentir o peso da idade, também sente culpa e ansiedade por se envolver com um homem mais novo, e, apesar de sua melhor amiga e vizinha Cristina (Isabel Fillardis) encorajá-la a viver a vida, Bárbara está confusa e insegura.

Com muita sensibilidade, o roteiro de ‘Sexa’ – escrito por Guilherme Gonzalez, Bianca Lenti e Glória Pires – joga luz sobre o universo sexagerário de maneira bastante honesta, com toda a sua glória (com o perdão do trocadilho) e seus desafios cotidianos. Ou seja, se por um lado traz uma protagonista autônoma, dona do próprio dinheiro e que se sustenta sem dificuldades, por outro também mostra as consequências da pressão social (oriunda da sociedade machista) que é internalizada nas mulheres (principalmente nelas), com a qual todas nós crescemos ouvindo e que, quando chegamos à essas idades-chave, torna-se quase impossível ignorar.

O maior acerto do filme é certamente ter Glória Pires na direção desse projeto; dada a relevância do tema, torna-se ainda mais especial por esta ser sua primeira incursão como diretora. E, por ser sua primeira vez, ainda que aqui e ali haja imprecisões, Glória demonstra ser perfeitamente apta a comandar um projeto cinematográfico – que seja o primeiro de muitos!

A personagem Bárbara é um reflexo de tantas e tantas mulheres, principalmente as do eixo urbano classe-média: aquelas que mesmo tendo conquistado autonomia financeira e (possivelmente) criado o filho sozinha, depara-se com um filho interesseiro, manipulador, controlador e sanguessuga financeiro – aquele que, ciente de que tem o suporte econômico da mãe, nem tem emprego, pois será para sempre sustentado por ela. Bárbara é aquela mulher que foi perdendo as ousadias e as coragens com o passar da idade, e, hoje, aos 60, acredita de verdade que deve se portar como uma velha senhora de 60 anos igual às dos filmes de antigamente. Desse contraste, vem a melhor personagem do filme, Cristina, que é exemplo diário de desprendimento comportamental, um lembrete leve e bem-humorado à protagonista de que é possível sim viver sem deixar a idade pesar nas decisões. Isabel Fillardis está excelente no timing e nas tiradas, evidenciando a importância das mulheres terem um ciclo de amizades com o qual contar.

Sexa’ é um filme bastante inspirador, e o fato de ser uma comédia romântica só melhora a probabilidade de sua mensagem principal chegar ao seu público-alvo: a de que está tudo bem completarmos 60 anos, está tudo bem mesmo. Torcemos por um ‘Sexa 2’!

author avatar
Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS