segunda-feira, janeiro 12, 2026

Crítica | Sociedade do Medo reflete Como a Humanidade e a Política usam o Medo como Controle e Poder

CríticasCrítica | Sociedade do Medo reflete Como a Humanidade e a Política usam o Medo como Controle e Poder
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Filme visto no Festival do Rio 2022.

O dia 30 de outubro será fundamental para decidir se o país vai permanecer sobre o controle do medo e do ódio ou se voltará a ser um território democrático e tolerante a todas as culturas. O medo, instinto natural a todo ser vivo consciente, é algo inerente a todos nós, entretanto, a consciência de sua existência e, consequentemente, o controle sobre ele pode ser nocivo e, muitas vezes, irreversível. Talvez por isso falemos tão pouco sobre o assunto. Razão pela qual o documentárioSociedade do Medo’, que estreia na próxima quinta, 27, se faz tão fundamental esse mês.



Em pouco mais de uma hora de duração, a documentarista e diretora Adriana L. Dutra busca respostas para uma pergunta muito simples: o que é o medo? Para tal, ela organiza entrevistas com diversos especialistas no assunto, dentre os quais o pensador e líder indígena Ailton Krenak, a vereadora Benny Briolly, a deputada Talíria Petrone, a jornalista da Globonews Flávia Oliveira, o padre Júlio Lancellotti, além de pensadores de outras partes do mundo (Tóquio, Nova York, Amsterdan, Los Angeles, Paris, Londres), dentre os quais estão os professores David Carrol e Jason Stanley e a economista Linda Yueh.

O roteiro se constrói a partir das respostas dadas pelos entrevistados, costurando a linha de pensamento da diretora que tenta entender o que é esse sentimento que nos atravessa. As respostas variam desde observações mais científicas (o medo é um instinto natural dos animais) a análises mais práticas do cotidiano (o medo que os corpos pretos sentem não é o mesmo que os corpos brancos sentem). Nesse contexto, os exemplos e reflexões dadas pelos entrevistados brasileiros superam em muito às análises em tons acadêmicos dos convidados internacionais; ainda que o estudo sobre o medo seja importante em termos técnicos, eles precisam ser traduzidos para que a população o entenda, do contrário, o conhecimento fica restrito à academia.

Em seu ensaio, ‘Sociedade do Medo’ é atravessado pelo medo generalizado que atingiu a todos nós nos últimos anos – a pandemia do corona vírus – e comprovou na prática o quanto conhecimento e desconhecimento sobre um assunto são geradores de medo, e, em sua contraparte, de poder e controle. Ou seja, aqueles que detém o conhecimento e a solução para um determinado assunto (o vírus) sentiram menos medo do que aqueles que tiveram que esperar pela vacina. Portanto, o ensaio sobre o medo é, também, um estudo sobre o uso político do medo na obtenção de controle e poder social.

Sociedade do Medo’ é um filme importante e esclarecedor também sobre a trajetória política da última década, sobre como esse sentimento congelante levou ao poder indivíduos que prometiam um suposto espectro de segurança, ofertadas por um grupo controlador que gera o mesmo medo que combatem. Às vésperas do segundo turno, é um documentário direto sobre como devemos, todos nós, não nos deixar levar pelo medo, não nos permitirmos ser controlados pelo medo, seja em nossas vidas, seja politicamente.

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Janda Montenegro
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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