Crítica | Sol da Meia Noite – Um romance para quem nunca assistiu a um filme sequer

Crítica | Sol da Meia Noite – Um romance para quem nunca assistiu a um filme sequer


Nota:


O Novo Crepúsculo

Pensando bem, Sol da Meia Noite soa exatamente como um roteiro modificado para um novo Crepúsculo. É como se os produtores tivessem oferecido o pitch desta forma: “Imagine Crepúsculo com o vampiro sendo a menina”. Assim, ganhamos Katie, personagem da ruivinha Bella Thorne, uma jovem que só pode deixar a casa quando anoitece. O motivo, no entanto, não tem a ver com o sobrenatural, mas sim devido a uma doença grave que transforma o sol em seu maior predador.

A vida inteira ela foi apaixonada por Charlie (Patrick Schwarzenegger), o bonitão do colégio, a quem viu desde a infância passar em frente à sua casa, em seu caminho para a escola. Katie é sensível, tímida, gosta de música e sonha em poder cantar – assim como toda boa menina em um destes filmes deve ser. Então, como em um toque de mágica, o caminho dos belos adolescentes irá se cruzar e eles irão se apaixonar perdidamente. No percurso, é claro, precisando enfrentar o drama da condição da moça – o conflito apresentado aqui.

A premissa, embora incrivelmente batida, poderia até render um resultado minimamente saboroso. Em anos recentes, os filmes de “jovens terminais” praticamente se tornaram um subgênero dentro do cinema de romance adolescente – a maioria até mesmo surpreendendo e sobressaindo seu teor açucarado. Ao invés de matar o espectador com elevadíssimas taxas de glicose, produções como A Culpa é das Estrelas (2014) e Tudo e Todas as Coisas (2017) obtiveram sua cota de elogios e fãs. Isso só demonstra a forma certa que o material pode ser tratado. Não é isso o que ocorre aqui.

Aproveite para assistir:


Ao contrário dos longas citados acima, Sol da Meia Noite parece trabalhar no mais baixo denominador comum. Não possui impressa qualquer sagacidade ou bom humor (o que dirá humor sarcástico) sobre o tópico adereçado. Este é somente mais um drama teen sobre doença, que perpassa por todos os itens da cartilha de obras assim, sem qualquer brilho ou insight.

A química entre o casal protagonista é inexistente, e este é um dos maiores problemas do romance. Em filmes assim, é esperado que o público anseie pelos personagens, para que fiquem juntos, e isso só se realiza se gostarmos de sua combinação. Esta é uma das maiores fraquezas de O Sol da Meia Noite. Separados, Thorne e Schwarzenegger não conseguem impulsionar seus papeis, entregando a vivacidade de “recortes de papelão” ao invés de seres humanos. Juntos então, soam como uma grande parede pintada de branco.

Bella Thorne, a It Girl do momento em Hollywood, já provou ter talento no passado e se sair bem em produções de comédia e terror, mas aqui, ao ser exigida que segure o filme com um papel dramático, a ruiva simplesmente não funciona. Talvez o recente comportamento errático da atriz, que começa a sair dos trilhos, tenha contribuído para sua atuação ligada no automático. Já o filho do grande Arnold Schwarzenegger, Patrick, em seu primeiro papel protagonista… bem, digamos que perto da performance do ator aqui, o muito criticado Scott Eastwood (filho de outro lendário artista, Clint Eastwood), comece a soar mais como um grande talento.

Sol da Meia Noite é baseado num filme japonês, escrito por Kenji Bando e adaptado por Eric Kirsten. A direção é de Scott Speer, o sujeito que cometeu os filmes da “franquia” Se Ela Dança, Eu Danço (2012 e 2014). Os diálogos são tão mundanos e sem energia, que podemos citá-los minutos antes, mesmo sem ter assistido ao filme, isso quando não causam vergonha alheia ou risadas involuntárias. Os únicos dois itens que se destacam são Rob Riggle como o pai e, em especial, Quinn Shephard no papel da melhor amiga Morgan – a jovem tem mais carisma em suas poucas cenas do que os protagonistas somados. Ficamos, inclusive, desejando que a história parasse de seguir a dupla principal modorrenta e começasse a acompanhar ela. Ou quem sabe se Shephard tivesse abocanhado o papel de Throne, tudo geraria um interesse maior.

A direção equivocada de Speer em algumas cenas, escritas de forma esdrúxula, só amplifica o grau do ridículo, deixando tudo artificial, e as risadas difíceis de serem seguradas por aqueles que já saíram da puberdade. Em um determinando trecho, por exemplo, Charlie exige que Katie comece a cantar e tocar, e sem mais nem menos, “sua voz celestial” começa a atrair um público cada vez maior, num local anteriormente desértico. E quem precisa do Flautista de Hamelin? Em outro momento, um descuido de Katie a faz ficar em maus lençóis, precisando fugir de última hora do sol – numa cena planejada como tensa e orquestrada na forma de um filme de terror. Tudo o que consegue causar, no entanto, são gargalhadas ao vermos Throne correr em câmera lenta de algo intangível. E tem quem ainda reclame da “fuga do vento” em Fim dos Tempos (2008), de Shyamalan.



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