Que estamos em tempos das cinebiografias musicais, isso já está bem evidente há uns dez anos. A indústria cinematográfica vem se debruçando sobre as bandas e artistas cujas trajetórias sejam conhecidas pelo público ao ponto de levá-los aos cinemas, embasados na construção do carinho de fã. Dessa leva, já veio muita coisa boa. Mas agora, mais do que contar a história de alguém famoso, o interessante é contar a história de alguém talentoso que admirava um famoso: é assim ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois‘, emocionante longa que chega essa semana aos cinemas brasileiros.

Mike (Hugh Jackman, de ‘O Rei do Show’) e Claire (Kate Hudson, de ‘Como Perder um Homem em Dez Dias’) são dois talentosos músicos que acabam se conhecendo nas estradas de Milwaukee, onde decidem se juntar para criar uma banda tributo a Neil Diamond. É assim que se tornam Lightning e Thunder (Raio e Trovão), uma banda tributo que começa pequeno e, aos poucos, vai ganhando espaço e repercussão em território nacional, realizando pequenas apresentações e despertando a atenção. Porém, em paralelo ao sonho, há também a vida pessoal de cada um deles, cujos filhos de outros relacionamentos também pedem a devida atenção. Quando as exigências do dia a dia começam a pesar demais na rotina, chega o momento de Lightning e Thunder decidirem até onde estão dispostos a investir nesse sonho.
Em tempos de cinebiografia de famosos, o maior acerto de ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ é focar na história de dois desconhecidos que, gente como a gente, apenas admiravam um artista e queriam ser como ele. E o artista em questão, ainda por cima, já andava em sumiço por lá (aqui no Brasil, então!). E a dupla ainda era tão obstinada que ainda tinha a audácia de não só cantar as músicas de Neil Diamond, mas de se dedicar a tocar aquelas que são menos conhecidas do público! Assim, em vez de contar da ascensão à fama, ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ conta a história de um casal que vende o almoço pra comer o jantar, enquanto tenta viver o sonho pessoal de se sentir realizado na música.

E é exatamente na mundanidade desses protagonistas que reside o carisma da história. Baseado em eventos reais, Lightining e Thunder são apenas duas pessoas que se amavam e correram atrás do sonho, enquanto, ao mesmo tempo, tinham que lidar com seus dramas pessoais, os boletos, o inesperado. Nessa jornada de dias de luta, dias de glória, o roteiro de Craig Brewer e Greg Kohs alterna bem a dosagem das emoções com a seleção musical, embalando o espectador na trajetória impressionante dessa dupla. Ainda que o grande público possivelmente não os tenha conhecido, é difícil segurar as lágrimas ao final da projeção.
Mesmo parecendo esquisito a escalação, na tela Hugh Jackman e Kate Hudson dão um show de talento, tanto na cantoria quanto na dramaticidade. A gente se esquece deles e embarca na vida do casal. Kate, em especial, está especialmente bem neste papel, e muito bem dirigida por Craig Brewer.
Com duas horas e doze de duração (e sem precisar de tanto), ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ surpreende e inspira sem a gente nem estar esperando. No final das contas, descobrimos que conhecemos mais de Neil Diamond do que imaginávamos. E que o sonho é o melhor combustível da vida, afinal, nunca sabemos quando ele poderá terminar. ‘Song Sung Blue: Um Sonho a Dois’ é uma joia emocionante que vai chegar discretamente ao circuito e merece ser vista.



