O que acontece quando morremos? Inúmeras narrativas cinematográficas tentam responder a essa pergunta — ou, ao menos, nos conectar com o sentimento de luto. Em seu segundo longa, a alemã Mascha Schilinski nos absorve pela perspectiva de quatro narradoras, em diferentes épocas, famílias e vivências, tendo como interseção o território domiciliar. Sound of Falling é uma fábula de experiências femininas em torno de sentimentos dolorosos e do fim.
Através do olhar e da voz em off — como nas páginas de um diário íntimo, Alma, Erika, Angelika e Lenka apresentam, ao longo dos anos, suas vivências no mesmo ambiente e suas transformações — passando de um espaço completamente rural, com trabalho braçal, empregadas domésticas e casamentos arranjados, para um meio urbano, com comunicação por celulares — permeado pelos mesmos sentimentos e elos que marcam a vida dessas meninas.
Logo de cara, Sound of Falling nos encanta por sua construção cênica, como se cada sequência fosse uma pintura emoldurada. O uso do som, por vezes estéreo e aberto aos ruídos do ambiente, é um de seus pontos mais marcantes, conseguindo explorar uma atmosfera sensorial e introspectiva de aproximação com cada personagem. Apesar de visualmente cativantes, as quatro narrativas fragmentadas tornam a experiência menos fluida e mais difícil de absorver por completo.

Em momentos em que nos interessamos por uma narrativa, ela é interrompida para dar lugar a outro tempo naquele mesmo espaço. Do mesmo modo em que a estrutura remete a um diário íntimo, as narradoras não são tão claras ou evidentes. Uma das meninas — a mais nova, e a mais fácil de nos afeiçoarmos, pelo delicioso sabor da descoberta do mundo por uma criança — é muito mais envolvente do que as outras, já na pré-adolescência ou encaminhando-se para a fase adulta. Ainda assim, o filme é esteticamente impecável — e usa a fotografia como um vislumbre poético da perenidade da existência..
Dessa forma, Sound of Falling promove momentos de grande deleite — e outros de aflição — ao apontar a câmera em plano-detalhe para partes do corpo, como uma gota de suor que desce pelo torso nu e repousa no umbigo, formando uma poça. Uma das meninas, entre a travessura e o gesto sensual, toca essa poça com o dedo e a leva à boca. A exploração do corpo também é um dos méritos da cineasta: ela consegue nos aproximar dessas meninas, mas, ao mesmo tempo, as envolve em uma nuvem de mistérios quanto às suas reais sensações e conhecimentos.

Uma delas diz, em certo momento, que quando repetimos muitas vezes uma ideia, ela ganha sentido — ou, como conhecemos popularmente, torna-se uma verdade. Ao conhecermos, na primeira cena, um dos membros da família com a perna amputada, nos deparamos com perguntas sobre a trajetória até aquele homem na cama e todas as histórias que orbitam aquela família. Todas as meninas conseguem adicionar novas camadas de reflexão, seja pelo receio do abandono, seja pelo despertar da vida sexual. Em mais de uma ocasião, ouvimos a descrição de uma delas sobre os olhos sob seus corpos.
Pense em As Virgens Suicidas (1999), de Sofia Coppola — cada uma com sua angústia sufocada, buscando respirar da melhor forma possível, mas sem nunca realmente nos dizer às claras. Marsha, junto com a corroteirista Louise Peter, criou esse mistério: o que essas meninas realmente desejam não é deixado claro nos poucos momentos que compartilhamos com elas, mas temos uma sensação de mergulho em certos momentos. Como em Sombras da Vida (2017), de David Lowery, em que os que se foram parecem permanecer aprisionados nas paredes outrora habitadas, podemos pensar neste filme como uma mescla dos dois — e sobre os espíritos dessas meninas — sem precisar traçar relações diretas entre elas.
Por conta desses relatos minuciosamente construídos, sentimos as curiosidades, vergonhas e sentimentos de culpa dessas meninas surgirem de forma entrecortada. Sound of Falling exaure, ainda que seja imageticamente belo. A relação entre as meninas no tempo presente — talvez a menos fascinante — carrega uma angústia silenciosa entre irmãs e um luto profundo provocado pela vizinha recém-órfã de mãe.
Se o texto parece se dispersar ao tentar organizar essas experiências de modo linear, é porque o filme se entende como um ciclo, sem princípio nem fim definidos. E talvez seja justamente aí que se insinua sua resposta mais potente: o que se passa quando morremos continua ecoando nos espaços, nos corpos e nas memórias que deixamos para trás.
