segunda-feira, junho 17, 2024

Crítica | Succession: 4ª e última temporada coroa gloriosamente uma das melhores séries já produzidas na era contemporânea

O peso da mortalidade e a necessidade de um legado tornaram Succession um drama familiar diferente de tudo que já vimos na história da televisão. Com ares corporativos, que sempre nos puxam para os meandros burocráticos do old money e de conglomerados empresariais dominados por um sobrenome em comum, a série de Jesse Armstrong, produzida por Adam McKay e Will Ferrell, faz do poder e da influência global um canalizador de traumas e dilemas familiares. E nunca foi tão delicioso ver tantos problemas paternos se desabrocharem em uma sagaz luta por dinheiro e validação pública.

E Succession sempre foi assim. Com olhos sempre focados no planejamento sucessório de um magnata que insistia em não abrir mão do seu trono, a série tornou os átrios de famílias poderosas como os Murdoch – na qual a série é inspirada – em uma espetacularização da ruína familiar. E a cada nova temporada, cá estávamos nos fartando de um dinheiro que jamais seria nosso, pelo puro deleite de ver o quão destruído está o ser humano sem o seio mais fundamental estabelecido desde o surgimento da humanidade.

Em meio à corridas frenéticas por domínio e puxadas de tapete em escala global, Succession construiu arcos impecáveis, em personagens complexos demais para serem excessivamente explicados. E a partir de diálogos afiados, permeados por referências socioculturais invejáveis e sempre regados por um humor sombrio e ardiloso, testemunhamos a profundidade narrativa de uma série capaz de falar de dinheiro, alienação parental e solidão sem precisar se ser óbvia, enfadonha. Tudo sempre estava lá, nas entrelinhas e na desconfortável linguagem corporal de seus protagonistas, sempre tão brilhantes e hipnotizantes.

Entre comentários despretensiosos regados de ironia e uma falsa sensação de plenitude, ali residia a dor de uma família destruída pela ambição desenfreada. E a 4ª e última temporada é a coroação suprema de anos de desdém, luxo e sagacidade desenfreados. E em uma espiral decadente delirante, vemos o old money ruir, dando espaço para a tecnologia e para o processo natural da sociedade contemporânea – onde monopólios oligarcas perdem espaço para empresários descentralizados, cujos sobrenomes valem bem menos do que seu inato poder aquisitivo.

E Succession se encerra como o ciclo sem fim de Rei Leão, em que o novo inevitavelmente chega para suprir aquele que se foi. E com a ousada decisão de tornar o grande algoz da série na grande vítima da temporada, Armstrong prepara a audiência não para o final que ela tanto esperava – onde a família ganha tudo -, mas sim para aquele final justo, correto e certeiro. Aqui, a ambição tão aplaudida de Logan Roy se transforma no fim do legado de seu sobrenome, enterrado junto de si, em um mausoléu de US $5 milhões. Waystar ainda pode estar nas placas do suntuoso arranha-céu na região mais cara de Nova York, mas tal como sua mortalidade foi posta à prova, assim também acontece com o futuro daquilo que ele criou.

E com decisões vazias, muito dinheiro embolsado, mas nenhum poder a galope, o trio de irmãos Roy vê o legado que jamais construíram sair de suas mãos. Herdeiros de bilhões, mas sem qualquer história heróica que lhes garantiria a tão sonhada validação pública que jamais receberam de seu próprio pai, eles são três sombras mal acabadas de um homem assustadoramente poderoso e influente.

E provando que o clássico versículo bíblico de que os últimos serão os primeiros também é fiel no mundo dos negócios, Succession honra o maior underdog de toda a narrativa, fechando ciclos de maneira impecável e reverente – sempre voltando nossos olhos para as três belíssimas e arrebatadoras temporadas anteriores. Imprevisível em seu final, como o próprio patriarca Logan sempre foi, a original HBO encerra sua jornada nos tirando o fôlego, roubando nossa atenção e nos deixando à deriva com um grande questionamento: Como superar uma das melhores séries das últimas décadas?!

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