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Crítica | Taylor Swift retorna a suas raízes do pop com o álbum ‘The Life of a Showgirl’


Taylor Swift alcançou um nível de popularidade inenarrável em suas quase duas décadas de carreira: quebrando recordes de vendas e alcançando feitos através de incontáveis prêmios (que incluem quatro gramofones dourados de Álbum do Ano), a cantora e compositora sagrou-se um zeitgeist incomparável e uma força criativa e mercadológica colossal que permanece como um estandarte no cenário do entretenimento. Influenciando a nova geração de artistas com uma invejável capacidade de se transformar a cada era, Swift firmou sua figura no mundo da música como uma das grandes compositoras da década, sendo elogiada por sua incrível habilidade lírica.

Ao longo de sua prolífica carreira, Taylor nos presenteou com ótimos álbuns que a permitiram navegar por vários gêneros – desde o cândido country de ‘Fearless’, o extravagante pop de ‘1989’ e as incursões do folk que despontam em ‘Folklore’. E, após se render a uma visível fadiga com certas escolhas de ‘Midnights’ e com o repetitivo e cansativo The Tortured Poets Department, Swift resolveu voltar às raízes de sua colorida personalidade com seu ambicioso 12º álbum de estúdio, The Life of a Showgirl. Aliando-se aos produtores Max Martin e Shellback, que já haviam trabalhado com a performer anteriormente, Taylor construiu um compilado de doze faixas inéditas que, mesmo com alguns deslizes, funcionam dentro do esperado e a colocam de volta à forma.

A vida de Swift sempre foi alvo de escrutínio público, tanto pessoal quanto profissional: desde artigos de tabloides desesperados por cliques que a martirizavam por seus parceiros até críticas incabíveis a suas decisões artísticas, cada momento de seu cotidiano era analisado com minúcia pelas lentes de um microscópio social que a tornava e a continua tornando centro dos holofotes. E, de certa maneira, essas experiências foram colocadas dentro de seu mais recente disco, lançado no último dia 3 de outubro – espalhando-se com uma sólida coesão estética que, por mais que tropece em algumas fórmulas e deslizes amadores, é prático o bastante para nos envolver em pouco mais de quarenta minutos.



O disco se inicia com o forte lead single “The Fate of Ophelia”. Desde antes do lançamento oficial do álbum, Taylor já havia comentado que a faixa seria escolhida como a música promocional e o carro-chefe da produção – contando com um videoclipe que foi exibido primeiro em um evento cinematográfico, chegando aos canais oficiais da cantora poucos dias depois. Explorando a controversa e complexa figura de Ofélia, uma das protagonistas da peça ‘Hamlet’, de William Shakespeare, a artista navega pelo dance-pop e pelo synth-pop de maneira envolvente e dramática, misturando notas esperançosas a uma sutil melancolia que acompanha os versos – e que narra sobre um interesse romântico que a salva do mesmo destino da trágica personagem.

O alto nível apresentado por Swift com o single em questão permanece nas faixas seguintes: “Elizabeth Taylor” emerge como um amadurecimento do estilo explorado pela performer em ‘Reputation’, utilizando a emblemática figura de um dos maiores ícones da sétima arte para esquadrinhas os bastidores da fama e o gosto agridoce do estrelato – algo com o que ela está bastante acostumada. Logo depois, “Opalite” mergulha numa mistura inesperada de pop rock e eurodance que aposta fichas em um impactante arranjo sonoro para construir uma despojada e divertida declaração de amor para seu noivo, o jogador Travis Kelce, à medida que discorre sobre a procura da própria felicidade.

A cantora e compositora parece ter aprendido com os erros cometidos em seus álbuns anteriores no tocante a metáforas inexplicáveis e bizarras e a uma circinal e exaurível repetição – diminuindo os deslizes ao trazer Martin e Shellback de volta à sua equipe, como já mencionado. Dessa maneira, é perceptível o brilho que emana das ótimas “Ruin the Friendship” e “Eldest Daughter”, enquanto a faixa-título nos leva de volta aos anos 2000 com incursões que nos lembram da subestimada Jordin Sparks e deixa que Sabrina Carpenter divida os holofotes com uma de suas principais inspirações. “CANCELLED!”, por sua vez, irrompe como a melhor faixa do álbum ao apostar em uma estrutura mais dark e mais ácida, infundida numa mistura arrepiante de synth-pop, acordes de guitarra e uma orquestração cinemática que nos guia por um enredo quase vingativo, com uma espécie de “menção reformulada” à banda Oasis.

Certas faixas, concentradas na segunda metade do disco, falham em alcançar seu potencial ou oferecer algo novo – seja na estranha lírica da suposta diss track “Actually Romantic”, nas risíveis metáforas de “Wood” ou nas cíclicas inflexões de “Wi$h Li$t” e “Honey”. Todavia, The Life of a Showgirl tem um saldo mais positivo que negativo, colocando Taylor em sintonia consigo mesma e permitindo que ela transforme o mundo em seu próprio palco.

Nota por faixa:

1. The Fate of Ophelia – 4,5/5
2. Elizabeth Taylor – 4/5
3. Opalite – 4,5/5
4. Father Figure – 3,5/5
5. Eldest Daughter – 4/5
6. Ruin the Friendship – 4/5
7. Actually Romantic – 2/5
8. Wi$h Li$t – 2,5/5
9. Wood – 2/5
10. CANCELLED! – 5/5
11. Honey – 1,5/5
12. The Life of a Showgirl (feat. Sabrina Carpenter) – 3,5/5

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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