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Crítica | Temporada final de ‘Stranger Things’ tem início sólido e marcado por reviravoltas


Crítica livre de spoilers.

A Netflix é lar de incontáveis produções que se tornaram sucesso de público e de crítica – desde filmes vencedores do Oscar até séries que angariaram legiões de fãs ao redor do mundo e deram início a movimentos culturais pela popularidade que conquistaram. E, em meio a um extenso e expansivo catálogo, certamente uma das produções mais prestigiadas e adoradas da plataforma é Stranger Things. A atração, que teve início há quase uma década, transformou-se em uma das assinaturas do streaming e se estendeu através de um legado inegável e incomparável ao misturar terror, aventura e ficção científica em uma carta de amor ao audiovisual e aos clássicos do gênero.

Nove anos depois de ter estreado na Netflix, está na hora de dizer adeus à série com a estreia da quinta e última temporada. Dividida em três partes, a primeira delas chegou ao serviço no último dia 26 de novembro, entregando-nos sólidos quatro episódios que já nos preparam para a batalha final entre os nossos amados protagonistas e o perigoso Vecna (Jamie Campbell-Bower), uma mortal criatura telepática que tem o poder de controlar mentes e que tem um plano maligno que envolve remodelar o mundo como o conhecemos através de receptáculos sequestrados e que servirão de conduítes para algo que precisa ser impedido a qualquer custo.



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A leva inicial de capítulos do ciclo de encerramento divide-se em vários núcleos que seguem os impressionantes eventos da iteração anterior: Eleven (Millie Bobby Brown) se joga de cabeça em um treinamento pesado para o momento em que enfrentará Vecna, sendo acompanhada de perto por Hopper (David Harbour) e Joyce (Winona Ryder); Will (Noah Schnapp), Mike (Finn Wolfhard), Lucas (Caleb McLaughlin) e Dustin (Gaten Matarazzo) seguem arquitetando um plano para interceptar as operações militares no Mundo Invertido para conseguirem qualquer pista que possa derrotar seu nêmesis; e Robin (Maya Hawke), Steve (Joe Keery), Nancy (Natalie Dyer) e Charlie (Jonathan Byers) utilizam suas habilidades para descobrir quando tais operações irão ocorrer, criando códigos para que seus aliados saibam o que fazer.

As expectativas estão lá em cima – e os obstáculos tornam-se mais perigosos minuto a minuto: Hawkins se vê em estado de sítio após o Mundo Invertido se fundir com a realidade que conhecem, compelindo nossos protagonistas a uma batalha contra o tempo para que Vecna não concretize seus planos. O vilão, por sua vez, começa a escolher crianças como alvo, passando-se pelo misterioso e convidativo Sr. Quequeé para contaminar suas vítimas e arrastá-las para seu domínio, forjando os laços psíquicos que culminarão em sua vitória. E, através de reviravoltas constantes e uma preocupação estética inescapável, os Irmãos Duffer acertam onde precisam para garantir um sólido início que, apesar dos empecilhos, entrega o que os fãs queriam em pequenas iterações epopeicas.

Como imaginávamos, os criadores da série assumem as rédeas dos dois primeiros episódios por completo, garantindo uma simbiose necessária que dá o tom da última temporada. Ora, se os nossos heróis agora estão crescidos e maculados por traumas, ressentimentos e anseios que ainda os acompanham, era apenas natural que os riscos aumentassem – e os Duffer, aliando-se a nomes como Frank Darabont, Paul Dichter e Caitlin Schneiderhan, não poupam esforços para garantir, com todas as letras, que ninguém está a salvo. E isso não é tudo: existe uma emblemática preocupação técnica e estilística que não apenas emula clássicos como ‘Caça-Fantasmas’ e ‘O Enigma de Outro Mundo’, mas que aposta fichas em uma ambição cênica que denota a cautela dos nomes envolvidos na produção, cujas ramificações chegam até mesmo a se apoiar em Alfonso Cuarón e James Cameron.

O trabalho do elenco é o elemento de maior sucesso, com destaque óbvio aos cinco jovens que nos guiaram nessa aventura exemplar e memorável – e com menções às magníficas performances de Hawke, Dyer e Schnapp (este transformando-se no fio condutor que une todos os núcleos em uma catártica guinada na história que amarra as pontas soltas e que não se esquece da própria mitologia criada). Sadie Sink faz um merecido retorno como uma versão quase fantasmagórica de Max, presa na mente de Vecna e tentando escapar de seu cárcere; Nell Fisher, retornando como Holly (irmã mais nova de Mike e Nancy), brilha em uma interpretação fantástica e envolvente; e Linda Hamilton diverte-se como a incisiva e categórica Dra. Kay, cujo objetivo principal é capturar Eleven.

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A temporada se inicia de forma convincente, recheada de ótimas sequências de ação e lutas muito bem coreografadas que trazem ritmo e dinamismo aos dramas pessoais e interpessoais dos personagens – seja na aliança de autoconhecimento e libertação de Robin e Will, nos percalços entre Steve e Dustin, e no relacionamento entre Hopper e Eleven. Entretanto, é preciso comentar que algumas escolhas de roteiro soam “preguiçosas”, por assim dizer, valendo-se de surpresas para mascarar certas repetições cansativas. Ademais, há arcos que não são tão bem desenvolvidos quanto os outros – mas que podem (e devem) ganhar mais complexidade e atenção na próxima leva de episódios.

O ciclo de encerramento de Stranger Things começa com o pé direito, mostrando que o longo tempo de espera valeu a pena – mesmo que excessos precisem ser aparados com os vindouros capítulos, cujo lançamento está agendado para o próximo mês. De qualquer maneira, voltar a Hawkins nunca é um erro, e os Irmãos Duffer provaram mais uma vez que sabem como contar uma boa história.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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