Chris Stuckmann pode não ser um nome muito conhecido no cenário mainstream, mas certamente encontrou lugar de sobra no escopo independente com trabalhos de terror ousados e bastante interessantes. Porém, foi apenas em 2025 que o cineasta conseguiu “quebrar a bolha” e alcançar fama significativa com o promissor ‘Terror em Shelby Oaks’. Exibido no Fantasia International Film e reeditado para o Fantastic Fest, o comentado projeto finalmente está em circuito mundial e chega nos próximos dias às salas brasileiras – e, enquanto se respalda em uma envolvente premissa, não sabe que caminho percorrer para alcançar seu objetivo.
Com o aclamado cineasta Mike Flanagan assumindo a cadeira de produtor executivo, o longa é centrado em um grupo de youtubers que ganharam fama ao documentarem lugares alegadamente assombrados – e que desapareceram de forma misteriosa após visitarem a cidade abandonada de Shelby Oaks. A princípio alvo de represália e acusados de estarem orquestrando uma narrativa exagerada, os membros da equipe se tornam alvo de uma procura sem sucesso e sem quaisquer pistas de seu paradeiro. Os corpos de três membros do grupo são encontrados, mas não há sinal de Riley Brennan (Brendan Sexton III) a jovem apresentadora que continua desaparecida e que, mesmo uma década depois, não impediu a irmã mais velha, Mia (Camille Sullivan) de desistir da procura.

Eventualmente sendo convidada para participar de um documentário sobre o misterioso caso envolvendo Riley, Mia recebe a visita de um homem transtornado que aparece na porta de sua casa para dar um tiro na própria cabeça. Em suas mãos, uma fita cassete com informações vitais para encontrar Riley – e que compelem Mia a contrair todos os avisos e todos os traumas de uma infância e uma adolescência complicadas para encontrá-la e colocar um fim em uma saga de terror e de tristeza. Porém, à medida que Mia explora as macabras ruínas de Shelby Oaks, ela percebe que tanto ela quanto a irmã podem estar no centro de uma artimanha diabólica e muito perigosa.
Stuckmann tem uma visão muito clara de como conduzir o projeto, ou ao menos é o que parece no ótimo primeiro ato: apoiando-se na estética do found footage e do mockumentary eternizado por ‘A Bruxa de Blair’, o cineasta tem ao seu dispor inúmeros tropos do gênero para explorar como quiser. Uma cidade pequena e isolada, árvores retorcidas que criam um labiríntico beco sem saída, protagonistas apaixonados pelo sobrenatural e que se veem vítimas desse doentio amor, e uma entidade infernal que rege todo o escopo apresentado. Os elementos narrativos e estéticos são frutos de incontáveis produções do gênero que se amalgamam em uma instigante luta pela sobrevivência – e que se rendem ao mais do mesmo conforme nos aproximamos do finale.

O problema principal é que Stuckmann não consegue se manter fiel ao que se propõe, rendendo-se a uma profusão de escolhas estilísticas que vão criando barrigas cena após cena, desperdiçando um potencial inegável em meio a fórmulas que, de fato, não precisavam existir. Enquanto a praticidade do found footage e do mockumentary traz uma certa nostalgia ao início do filme, criando um espaço familiar e saudosista que nos faz comprar a ideia, migrar para a clássica ficção sobrenatural soa como uma decisão errônea que não deixa muito espaço para investidas além do óbvio.
A trama principal torna-se previsível depois de um tempo, dando pistas claras demais para deixar que a tensão e o suspense prevaleçam. Algumas delas, entretanto, funcionam dentro da mitologia que Stuckmann cria, visto que também fica responsável pelo roteiro: a apresentação da entidade demoníaca contribui para uma reviravolta interessante envolvendo as irmãs, esquadrinhando uma pontual reflexão sobre destino e sobre poder; e, divertindo-se em meio a um arquétipo conhecido desse subgênero de terror, Sexton e Sullivan fazem o que podem para entregar atuações sólidas e que dialogam diretamente com os tipos de personagens que encarnam – contando com carisma o suficiente para fazer o público se importar.

Apesar da premissa interessante, ‘Terror em Shelby Oaks’ desperdiça a oportunidade de aproveitar a nostalgia do boom de terrores em found footage e tenta colocar muito em um espaço limitado – transbordando de ideias que não se concretizam como o imaginado. Porém, através de um elenco competente o bastante para nos entreter, o resultado pode ser muito positivo àqueles que apenas procuram espairecer.

