sexta-feira, janeiro 23, 2026

Crítica | ‘Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno’ é uma adaptação frustrante de um dos melhores jogos da história

CríticasCrítica | 'Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno' é uma adaptação frustrante de um dos melhores jogos da história

Dois anos depois de terem feito história com o lançamento de Silent Hill, o grupo conhecido como Team Silent superou todas as expectativas dos fãs de games ao introduzir um novo capítulo à icônica franquia de terror: Silent Hill 2’. Lançado em 2001, a icônica narrativa foi extremamente elogiada pela crítica e pelo público, principalmente por trazer inspirações do clássico romance ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoievsky, em um universo marcado pelo terror psicológico e sobrenatural – além de se valer de uma potente análise sobre morte, culpa e libertação.

Agora, somos convidados a conhecer a vindoura adaptação do game. Intitulada ‘Terror em Silent Hill: Regresso ao Inferno’, o projeto traz Christophe Gans, que comandou o filme original lançado em 2006, de volta à cadeira de direção em uma ambiciosa empreitada que, infelizmente, não consegue capturar a essência do jogo e transforma-se em um amontoado de clichês cansativos e metáforas vencidas que deixa os dois filmes anteriores da franquia parecendo obras-primas da sétima arte. Destituindo-se de todas as nuances e complexidades de um enredo pautado na exploração das sombrias profundezas da psique humana, esse longa-metragem não justifica a própria existência e desperdiça talentosos nomes em prol da superficialidade.



A trama acompanha James Sunderland (Jeremy Irvine), um jovem pintor que, em um quase acidente de carro, conhece Mary Crane (Hannah Emily Anderson), uma moça que parece desesperada para sair da litorânea Silent Hill. Eventualmente perdendo o ônibus que a levaria para a cidade vizinha, Mary retorna para casa ao lado de James, dando início a uma expoente história de amor que navega entre segredos complicados e obscuros. Os dois eventualmente se separam, reencontrando-se uma última vez quando Mary padece de uma mortal doença que deixa James em espiral de loucura – até receber uma carta da falecida ex-esposa pedindo para que ele retorne ao local onde se conheceram.

Viajando de volta a Silent Hill, James percebe que a outrora vibrante, alegre e misteriosa cidade se transformou em palco para um terror inexplicável e malévolo que drenou a vida de cada uma das ruas e estabelecimentos. Vítima de uma força sobrenatural que se iniciou com os incêndios que a varreram quase por completo, Silent Hill agora é lar de criaturas demoníacas que fazem com que James comece a questionar a própria sanidade mental à medida que navega por memórias dolorosas e uma culpa que passa a consumi-lo minuto a minuto.

Logo nos primeiros minutos do projeto, percebemos que o roteiro escrito a seis mãos – Gans, Sandra Vo-Ahn e Will Schneider – não tem uma estrutura muito sólida e não sabe como introduzir os personagens de maneira concisa ou envolvente, fazendo pouco para colocar os elementos necessários para nosso engajamento. Irvine, que já havia participado de produções como ‘Cavalo de Guerra’ e ‘Mamma Mia! E Lá Vamos Nós de Novo’, vê seu personagem transformado em um estereótipo de qualquer homem solitário amargurado afastado de seu verdadeiro amor. Em meio a diálogos fracos e dotados de uma presunção existencialista que não tem qualquer sentido, nem mesmo suas tentativas de superar as fórmulas conseguem salvar o arco desse protagonista esquecível e, por vezes, irritante.

Irvine é acompanhado de Hannah Emily Anderson, que não é nenhuma estranha do mundo do terror por já ter integrado projetos como ‘Jogos Mortais’ e a série de televisão inspirada na franquia ‘Uma Noite de Crime’, sofre do mesmo mal. Ainda que consiga explorar seu carisma em breves momentos e à medida que navega em um complexo arco que envolve três personagens diferentes, as frases assinadas por Gans e seus colaboradores são tão profundas quanto um pires de chá, valendo-se de incontáveis comodismos narrativos em o que parece ser uma apropriação da “lei do menor esforço”. Em contrapartida, o realizador procura expandir esse universo com alegorias gongóricas que apenas reiteram o grande vazio que esse filme quer mascarar.

A estética cênica também não nos ajuda a mergulhar nesse mundo do terror: Gans não tem ideia de qual direção seguir, optando por emular suspenses sobrenaturais em uma colcha de retalhos sem muito sentido, ou escolhendo a perspectiva em primeira pessoa ao colocar a câmera em uma “homenagem” à arte dos games – que não tem cabimento quando pensamos no teor psicológico que paira sobre o enredo. E, para além de escolhas artísticas duvidosas, a exaustiva fotografia de Pablo Rosso e a cômoda trilha sonora de Akira Yamaoka apenas somam a uma sucessão de erros que nos tira algumas risadas de frustração ao longo de extenuantes 106 minutos de duração.

‘Terror em Silent Hill: Regresso ao Inferno’ já pode ser considerado um dos piores filmes de 2026 por, como mencionado alguns parágrafos acima, não conseguir justificar a necessidade de existir dentro de um universo que claramente não funciona como obra cinematográfica. Com exceção de brevíssimos ápices que se destinam mais às tentativas dos atores de trazer um pouco de vida às telonas, o mais novo capítulo da franquia cinematográfica transforma um aclamado game em uma releitura frívola e frustrante do começo ao fim.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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