Desde quando estreou em 2019, o Apple TV trilhou um caminho de extremo sucesso crítico e comercial que o transformou no principal serviço de streaming da atualidade – superando a inegável qualidade que plataformas como a Netflix, o Prime Video e a HBO Max e entregando um título mais bem construído que o outro. Dentre a variedade de gêneros que existe em seu catálogo, temos potentes dramas como ‘The Morning Show’ e ‘Pluribus’, ficções científicas instigantes como ‘Silo’ e ‘Monarch: Legado de Monstros’, e comédias como ‘Dickinson’ e ‘Ted Lasso’. E, apesar de ter maior destaque no circuito seriado, o serviço também nos entregou alguns longas-metragens que chamaram a atenção.
E essa foi a tentativa de ‘The Dink – A Última Chance’, comédia esportiva que chegou ao streaming recentemente em sua grade de programação. A trama é estrelada por Jake Johnson como Dustin “Dusty” Boyd, outrora um prodígio do tênis que era conhecido como “O Martelo” por causa da descomunal força com a qual jogava. Porém, após um acidente durante uma partida decisiva, Dusty foi forçado a tirar um tempo para se recuperar, jogando uma promissora carreira no lixo, decepcionando os austeros sonhos do pai, Chuck (Ed Harris), e sendo forçado a trabalhar como treinador, remoendo um passado distante que não retornará mais.

Dusty vê uma chance de se provar digno da aprovação do pai, que nunca sequer lhe deu um resquício de apoio, quando o clube passa por um dilema: os responsáveis pelo treino de pickleball, que é visto com olhares grosseiros pelos tenistas. Enquanto estes querem barrar a “disseminação” do esporte, aqueles querem ampliar as quadras – visto que a única existente está praticamente abandonada. Para isso, Chuck encontra no estatuto do clube uma brecha que dá espaço para uma última partida para decidir o “destino de todos” (sim, de uma forma bastante dramática, por assim dizer). Dusty, então, participa de uma seletiva em que quer mostrar que deve ser escolhido como o campeão dos tenistas, mas se machuca e é aconselhado a praticar pickleball até que melhore.
Lá, ele cruza caminho com Candace (Mary Steenburgen), uma esportista mais velha que foi banida por Dusty após uma breve aposta – e que, contrariando as expectativas, se torna sua parceira de time. Eles, então, começam a desenvolver uma relação de amizade que ultrapassa as quadras e que se transforma em um respiro de paz e de refúgio. Nesse meio tempo, as conturbações com o pai crescem, enquanto Dusty erroneamente interpreta a aproximação de Candace como um possível enlace romântico – o que culmina em mais uma atribulação e uma decisão que, convenhamos, é previsível: jogar pelo time de pickleball em vez de se forçar a ser uma pessoa que não é.

O projeto é dirigido por Josh Greenbaum, que não é nenhum novato dentro do cenário cômico. Afinal, o cineasta é responsável pelo divertido ‘Duas Tias Loucas de Férias’, estrelado por Kristen Wiig e Annie Mumolo, e pela comédia escrachada ‘Ruim pra Cachorro’, que nos levou de volta aos anos 2000 com uma narrativa propositalmente sórdida e exagerada. Logo, navegar pela comicidade de uma atmosfera esportiva não é nenhum trabalho pesaroso para o realizador – que se apropria dos convencionalismos do gênero e de incontáveis fórmulas para nos divertir por breves 103 minutos de tela.
Se deixarmos os óbvios deslizes de lado, é possível encontrar uma narrativa que não tem qualquer pretensão de “reinventar a roda”, e sim oferecer uma cândida mensagem de bonança que é laçada pela ótima presença de Johnson, que também fica responsável pela produção ao lado Ben Stiller, e pela incomparável química que nutre com Steenburgen – e a dupla, conhecida por manejar quebras de expectativa de maneira natural, consegue trazer ritmo, dinamismo e nos arranca algumas risadas em meio aos clássicos arquétipos que encarnam. Acompanhados por Harris, Patton Oswalt e até mesmo a aparição dos ex-tenistas Andy Roddick e John McEnroe, os dois permitem que os clichês se tornem aprazíveis o suficiente para nos entreter.

‘The Dink – A Última Chance’ é o filme sobre pickleball que você não sabia de que precisava e que, contrariando nossas expectativas, funciona como uma singela entrada do catálogo do Apple TV que, com certeza, será esquecido daqui o tempo – mas cujo sólido trabalho de Johnson e Steenburgen como uma dupla de improváveis amigos faz a jornada valer a pena.


