segunda-feira, janeiro 12, 2026

Crítica | Timothée Chalamet e Josh Safdie unem forças para o primoroso e irretocável drama cômico ‘Marty Supreme’

CríticasCrítica | Timothée Chalamet e Josh Safdie unem forças para o primoroso e irretocável drama cômico 'Marty Supreme'
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Os Irmãos Safdie são conhecidos por inúmeras colaborações que trouxeram uma originalidade inerente à arte de se fazer filmes, desde sua estreia com o elogiado ‘Traga-me Alecrim’ até a poderosa comédia dramática ‘Joias Brutas’, uma das produções mais subestimadas da década passada. Agora, os irmãos parecem estar navegando em suas próprias trajetórias, com Benny Safdie tendo comandado a recente e elogiada cinebiografia ‘Coração de Lutador: The Smashing Machine’, com The Rock e Emily Blunt, e Josh Safdie se aventurando no mundo esportivo com a impecável dramédia ácida ‘Marty Supreme’ – e é sobre este filme que falaremos no texto a seguir.

Retomando parceria com seu colaborador de longa data, Ronald Bronstein, Josh arquiteta um dos melhores longas-metragens da década ao garantir que cada uma das engrenagens dessa frenética jornada esteja em perfeita sincronia com as demais, entregando-se de corpo e alma para um roteiro exemplar, uma montagem vibrante e uma fotografia que explora até onde a ambição humana pode chegar. E, para construir o longa-metragem, Safdie trouxe Timothée Chalamet, que ganhou inúmeros elogios por seus múltiplos papéis no cenário do entretenimento, no papel de sua carreira – e que muito provavelmente pode lhe render um merecido Oscar de Melhor Ator.



Na trama, que traz inspirações livres da vida de Marty Reisman, Chalamet encarna Marty Mauser, um jovem vendedor de sapatos que trabalha no Lower East Side de Manhattan e que, nas horas vagas, compete como um jogador de tênis de mesa profissional cujo maior sonho é participar do Torneio Mundial. Navegando entre o atribulado mundo dos esportes e envolvendo-se com pessoas perigosas e sedutoras, Marty tem o desejo autodestrutivo de se provar não apenas para si mesmo e para as pessoas que conhece, mas para o planeta inteiro, com ganas de se tornar uma divindade encarnada em terra que merece ser idolatrada – e que, ao mesmo tempo, parece não enxergar o mundo à sua frente.

Josh tem uma visão muito clara do que quer: se desassociar do estilo que firmou ao lado do irmão, mas sem renegar a carga criativa que explorou em outras produções. Em outras palavras, é notável como o diretor e corroteirista investe esforços consideráveis para construir uma espécie de ‘Joias Brutas’ com esteroides, valendo-se da mesma estética clássica e envolvente que explorou no filme estrelado por Adam Sandler, com um filtro nostálgico e sutil que ajuda a levar o público em uma viagem no tempo, nos levando para os principais polos do tênis de mesa dos anos 1950 à medida que singra por anacronismos estilísticos que apenas ajudam a aumentar a densidade da narrativa.

Safdie e Bronstein fazem questão de não construir um herói clássico ou um anti-herói romantizado, mas sim uma pessoa dotada de falhas e de um senso de superioridade que ultrapassa um sistema de crenças totalmente desestabilizado – motivo pelo qual ele não tem escrúpulos em se envolver com Rachel Mizler (Odessa A’zion), uma antiga amiga de infância que, mesmo casada, mantém uma relação secreta com Marty; e Kay Stone (Gwyneth Paltrow), uma ex-atriz e socialite que cai na mira de Marty e que passa a ter um caso escandaloso com o esportista. E, à medida que o personagem principal tenta se desvencilhar de cada um dos capítulos que encerrou em sua vida, ele se vê diante de um trabalho impossível ao passo que duas realidades totalmente se chocam em um explosivo tour-de-force.

Chalamet, que já havia causado grande comoção com suas performances em ‘Me Chame pelo Seu Nome’, ‘Querido Menino’, ‘Duna’ e ‘Um Completo Desconhecido’, volta a nos surpreender com a melhor atuação da carreira (ao menos até agora) ao mergulhar de cabeça no papel que parece ter nascido para interpretar. Ao encarnar as múltiplas facetas de um jovem cuja necessidade de estar sempre no centro dos holofotes apaga qualquer traço de empatia e de compreensão, Chalamet reitera seu status como um dos maiores atores da geração, garantindo que cada sentimento e cada beat esteja em uníssono com um espetáculo que ao mesmo tempo se expande para analisar a pequenez do ser humano e se contrai para denotar a inexorabilidade da solidão e do vazio.

À medida que trata os acontecimentos com pinceladas ácidas do sarcasmo, da ironia e de uma exploração nada arbitrária da avidez de Marty, Safdie faz questão de deixar que os outros membros do elenco tenham seu momento de brilhar – com destaque à contida e sólida entrega de Paltrow em um glorioso retorno às telonas, e de A’zion em mais uma bem-vinda entrada em sua carreira em ascensão. Integrando esse “time dos sonhos”, temos Kevin O’Leary como Milton Rockwell, um magnata influente casado com Kay que se interessa por Marty e por sua carreira esportiva; e Fran Drescher em uma breve aparição como Rebecca Mauser, mãe de Marty e ponto-chave para que o protagonista se mantenha fincado a uma realidade que não pode varrer para debaixo do tapete.

A decisão do diretor em rodar o filme em 35mm promove à obra uma fuga da cronologia, por assim dizer, garantindo um efeito de granulação natural que nos permite encontrar a narrativa em determinado ponto do espaço-tempo, mas não a ponto de nos distanciar da época. Pelo contrário, a indução de nostalgia e saudosismo se firma na medida certa, e vem acompanhada de uma trilha sonora propositalmente anacrônica que utiliza elementos robóticos e retrofuturistas dos anos 1980 em uma composição etérea e intangível – cortesia das habilidosas mãos de Darius Khondji como diretor de fotografia e Daniel Lopatin como compositor.

‘Marty Supreme’ é um dos filmes que definem o cinema contemporâneo como ele é e como deveria ser, carregado de ousadias e de um comprometimento apaixonante que transforma as potentes duas horas e meia de tela em uma delirante jornada antropológica que é, ao mesmo tempo, incansável e satisfatória. Contando com a presença formidável de Timothée Chalamet no melhor papel da carreira, o novo longa de Josh Safdie é, com a falta de outro adjetivo, primoroso.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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