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Crítica | Trilha Sonora Para um Golpe de Estado – Jazz e Conspiração Embalam Documentário Indicado ao Oscar


Boa parte da história da África é desconhecida pelo grande público. Mesmo com muitos esforços de trazer outras narrativas e olhares sobre o continente, o imaginário coletivo ainda segue bastante congelado em imagens que foram reproduzidas initerruptamente após séculos de invasão, colonização e violência. Mesmo a história recente de África ainda é pouco divulgada, daí a importância de ferramentas como o documentárioTrilha Sonora Para um Golpe de Estado’, indicado ao Oscar neste departamento e que chega essa semana aos cinemas brasileiros.

Na virada do século XIX, um ritmo novo começou a se espalhar pelo sul dos Estados Unidos: o jazz. Meio século depois, nomes como Max Roach, Louis Armstrong, Nina Simone, dentre outros, passaram a despontar com impressionante potência musical. Nesse mesmo período, entre as décadas de 1940 e 1970, outros episódios marcantes circulavam no mundo: a bomba em Hiroshima (1945), a corrida espacial e a Guerra Fria, as primeiras lutas por independência pelas então colônias africanas. No meio disso tudo, os Estados Unidos produziram uma improvável cortina de fumaça, que poucas pessoas conseguiram entender: de olho no urânio, no titânio e outros elementos produzidos no Congo, os Estados Unidos, então liderado pelo presidente Eisenhower, teriam indiretamente financiado um golpe de estado para retirar o poder o líder Lamumba, principal opositor da colonização belga na República do Congo.



Trilha Sonora Para um Golpe de Estado’ é um filme muito interessante e diferente do que se vê por aí. Misturando técnicas mais experimentais, o diretor e roteirista Johan Grimonprez fez, sem dúvidas, um extenso e profundo trabalho de arquivo, coletando materiais preciosíssimos em vídeo, áudio e imagens – muitas das quais com mais de oitenta anos de idade. Tudo que ele apresenta como conteúdo audiovisual em seu documentário é impressionante, seja pelo seu teor histórico, seja pelo ineditismo de o espectador estar tento acesso, contato com o material exibido. São diversos vídeos e fotos da assembleia da ONU, das ruas e cidades do Congo, de apresentações de jazz, tudo com uma qualidade absurda.

Mas, o documentário tem duas horas e meia de duração, e isso, apesar da relevância do assunto, acabam pesando para o espectador. O roteiro de Johan Grimonprez e Daan Milius pode ser dividido em três partes: uma primeira, de quase trinta minutos, que apresenta uma sequência de artistas incríveis do jazz, em shows, encontros e comentários; a segunda etapa, de aproximadamente uma hora, faz um caminho ao suposto golpe de estado, falando da história do Congo, a agressiva invasão da Bélgica no país e os interesses dos Estados Unidos e da ONU no país africano; por fim, a terceira etapa faz a conexão de todos esses elementos, dando nomes e motivações para determinados personagens terem orquestrado o afastamento, a prisão e a morte do líder Lamumba. Embora funcionando como a evidente trilha sonora (e cortina de fumaça) para o tal golpe, a parte do jazz acaba se estendendo por muito tempo, e no início do filme, confundindo o espectador sobre a possível relação daqueles artistas todos ao tal golpe que o longa propõe. Até que a coisa toda fique evidente, já passamos de duas horas de filme, o que pode deixar algumas histórias mal explicadas pelo caminho para o espectador que não busque se aprofundar sobre o assunto com outras ferramentas em posteriori.

Trilha Sonora Para um Golpe de Estado’ é um filme impressionante e corajoso por apontar a responsabilidade dos Estados Unidos, da ONU, da Bélgica e da União Soviética sobre o estado atual (e o percurso percorrido) pela República do Congo. Mais que um documentário, é uma denúncia da opressão contemporânea que ainda recai sobre os territórios africanos. Forte candidato a levar a estatueta pra casa.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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