Crítica | Truly Naked: Provocativo e inquietante, filme mostra adolescente como cameraman dos filmes X do próprio pai (Berlinale 2026)

Filme da mostra Perspectiva do Festival de Berlim 2026

Logo na primeira cena de Truly Naked, dirigido por Muriel d’Ansembourg, somos colocados diante de uma imagem ao mesmo tempo sedutora e desconfortável: um corpo feminino banhado em tinta dourada, pintado ao ritmo de uma relação sexual. A câmera percorre os seios, as nádegas, as costas e as pernas. Não é apenas erotização estética: é a mise-en-scène do olhar por trás das câmeras, voltada para a atenção digital, a partir do quarto de sua casa, em uma pequena cidade inglesa.

E esse olhar pertence ao adolescente introvertido Alec (Caolán O’Gorman) que filma as “brincadeiras” produzidas pelo pai, Dylan (Andrew Howard), ator e produtor de títulos que misturam fantasia exagerada, deboche e choque como motor de excitação. Enquanto muitos jovens não imaginam os pais nesse contexto, Alec não apenas assiste, mas também grava, seleciona e edita as imagens do ato. A premissa é inusitada e desloca o eixo do coming-of-age para a perspectiva de quem observa a sexualidade adulta. O filme não busca escândalo; investiga as consequências desse ambiente na formação emocional do adolescente.

Já vimos o cinema abordar esse universo sob outras perspectivas, como em Pleasure (2021), de Ninja Thyberg, que mergulhava na trajetória de uma jovem em busca de sucesso como atriz na indústria X. Ao contrário, aqui o foco é o filho que observa, e não quem atua. Ele está inserido nesse universo pelo desejo de reconhecimento e aprovação paterna. O prazer sexual de observar essas mulheres ainda não é perceptível; ele demonstra mais empatia pelas garotas e funciona como a voz da razão.

O roteiro acerta ao inserir a discussão dentro do contexto escolar, da relação pai e filho, e da descoberta da relação sexual. Enquanto tenta esconder dos colegas a profissão do pai, ele começa a confrontar seus próprios traumas: o luto materno, a tentativa recente de reconstrução familiar, a masculinidade tóxica naturalizada em casa. Com dosagem de drama, erotização e comédia, há, por exemplo, uma luta com objetos que simbolizam o falo paterno, usados como espadas entre pai e filho, subvertendo o complexo de Édipo.

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Há algo muito forte na ideia de que ele olha, mas nunca toca. Ele cresce observando genitais femininas através da lente, aprendendo sexo como performance antes de compreender intimidade, consentimento e vulnerabilidade. O prazer surge como espetáculo. Como contraponto, o tímido garoto ganha uma oportunidade ao ser escalado para trabalhar em dupla com a feminista Nina (Safiya Benaddi). 

Mesmo dirigido por uma mulher, Truly Naked não abandona o voyeurismo, ele o expõe. É inevitável lembrar do conceito de male gaze, formulado por Laura Mulvey, e perceber uma tentativa da diretora desconstruí-lo. O corpo feminino, entretanto, ainda aparece oferecido ao consumo de um olhar que não participa, apenas observa e deseja algo inalcançável. A pornografia, sugere o longa, talvez não seja nociva apenas no ato individual de assistir, mas na construção do imaginário coletivo.

 

A colega feminista da escola adiciona outra camada à discussão, questionando por que ainda é tão difícil conceber brincadeiras voltadas ao desejo feminino, em que mulheres sejam sujeitos e não objetos. Ao mesmo tempo, o filme evita simplificações: Lizzie (Alessa Savage), uma das atrizes dos vídeos caseiros do pai, declara estar satisfeita com seu modo de sustento e escolha. O feminismo aqui aparece como campo de tensão, ainda incapaz de resolver todas as contradições entre autonomia e estrutura.

A problemática não seria os filmes em si, mas o patriarcado que sustenta esses olhares estruturantes sobre a objetificação feminina, mesmo que seja uma escolha do indivíduo. Uma sequência particularmente impactante desmonta fantasias obscuras como as dos mangás hentai. A ideia de um vídeo do fetiche envolvendo tentáculos e orifícios transforma-se em tormento real para Lizzie. A fantasia perde o verniz. O prazer encenado revela violência, constituindo um dos momentos mais contundentes do filme

No centro de tudo de Truly Naked, porém, está a tentativa do garoto de romper o ciclo e buscar conhecer o próprio corpo, gostos e desejos. Sua primeira tentativa de intimidade com Nina é prejudicada por conta da reprodução de algo desses vídeos. A garota que pilota a moto — ocupando simbolicamente o lugar de condução — não gosta do lugar de submissão e este rompimento marca o ponto de virada na forma como ele enxerga o próprio desejo. Com Nina, ele descobre que intimidade não é espetáculo, mas experiência vivida.

O jovem ator protagonista Caolán O’Gorman ainda oscila entre contenção excessiva e momentos menos orgânicos, mas essa instabilidade dialoga com o próprio processo de formação do personagem. Ele lembra Paul Mescal em um dos seus primeiros trabalhos na série Normal People. Embora o roteiro avance na discussão, poderia explorar mais a dimensão econômica do trabalho do pai. O garoto ajuda, como ajudaria em qualquer outra tarefa para sustentar a casa, e não por gozo.

Truly Naked não é moralista em relação a esse universo, nem aprofunda a luta de classes de quem participa dele, embora haja passagens que retratem a situação financeira precária de alguns personagens, principalmente das atrizes que trabalham com Dylan. 

Imperfeito, mas provocador, o longa abre uma discussão necessária sobre intimidade, masculinidade e a educação sentimental de uma geração que cresceu com o sexo na palma da mão desde a infância. O desfecho estabelece uma diferença clara entre estar presente e fantasiar sobre o sexo, entre visualizar e viver, entre consumir e se relacionar. O desfecho remete ao título: despir-se das fantasias e confrontar a intimidade real.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.