Crítica | ‘Um de Nós Está Mentindo’ é um divertido mistério adolescente que entrega exatamente o que promete

Um assassinato. Quatro suspeitos. Todos alegam que não tiveram nada a ver com esse trágico evento da Bayview High, mas as evidências apontam o exato oposto e colocam esse grupo de jovens na mira dos investigadores e daqueles que os rodeiam, incluindo alguém que quer fazer de tudo para incriminá-los.

Você já deve ter ouvido essa premissa em algum filme ou série de mistério dos últimos cinquenta anos – ora, é só nos lembrarmos do recente ‘Morte no Nilo’, que adaptou um dos clássicos de Agatha Christie para os cinemas, ou de ‘Cruel Summer’, que se afastou do assassinato em si e trouxe às telinhas um competente e instigante mistério. A lista é interminável e pode até atrair olhares céticos, ainda mais quando a história em questão se apresenta como um drama de suspense adolescente. Mas, no final das contas, ‘Um de Nós Está Mentindo’, nova sensação da Netflix, cumpre com o que esperamos de uma produção desse calibre e abraça as fórmulas sem querer criar algo original, e sim nos convidar para uma jornada bastante prática e que nos deixa com um gostinho de quero mais.

Baseado no romance homônimo best-seller de Karen M. McManus, a história é a supracitada no parágrafo inicial desta crítica: quatro adolescentes que estão prestes a terminar o Ensino Médio se veem arrastados para uma artimanha que toma proporções catastróficas quando o menino mais odiado da escola, Simon (Mark McKenna), morre após ingerir óleo de amendoim e ter um choque anafilático. É a partir daí que Bronwyn (Marianly Tejada), Addy (Annalisa Cochrane), Cooper (Chibuikem Uche) e Nate (Cooper van Grootel) lutam contra as adversidades mais impossíveis para provar que são inocentes e que não merecem a atenção repreensiva de seus colegas e das autoridades – que acreditam que o quarteto uniu forças para tirar Simon de cena em virtude do que ele fez.

A série, em si, não tem muitas direções a seguir, por seguir um padrão comum dentro do cenário mainstream e por se valer da adaptação de um livro. Entretanto, a showrunner Erica Saleh sabe lidar com o material que lhe foi dado e mergulha, essencialmente, na profundidade dos protagonistas e coadjuvantes, não os deixando de lado em nenhum momento – apesar de sacrificar alguns momentos-chave no roteiro para que nos importemos com eles. Dessa maneira, não lidamos com heróis ou vilões, e sim adolescentes que foram longe demais para esconderem seus podres. É claro que o uso constante de arquétipos que se afastem dos estereótipos teen dos anos 1980 acaba encontrando um beco sem saída e não abre brechas para uma revelação bombástica, mas o resultado é aprazível o suficiente para querermos mais uma temporada.

A diferença entre os quatro personagens principais é gritante e emerge de forma previsível e funcional: Addy é uma cheerleader popular e que namora um dos astros do time de futebol americano, Jake (Barrett Carnahan), vivendo à sombra de alguém que a exibe como um troféu até perceber que está envolvida em um tóxico e inescapável relacionamento – familiar? Dê uma olhada em Olivia Holt em ‘Cruel Summer’; Cooper é uma estrela do beisebol que esconde sua verdadeira orientação sexual dos amigos e do pai para que consiga uma bolsa na faculdade e cumpra com os sonhos que lhe foram atribuídos, mantendo um relacionamento secreto com Kris (Karim Diane) e outro de fachada com Keely (Zenia Marshall), que sabe de seu segredo; Nate é o delinquente do colégio e já foi preso por tráfico de drogas, motivo pelo qual é descrito como o principal suspeito do assassinato de Simon; e, por fim, temos Bronwyn, uma estudante e filha “perfeita” focada em passar na Universidade de Yale que começa a questionar seus valores quando percebe que algo maior está em jogo.

Cada persona descrita por ser substituída por qualquer parecida que você tenha visto – algo que nos dá as cartas do jogo para descobrir, por conta própria, como a narrativa irá se desenrolar. Eles se tornam amigos; são perseguidos pelo verdadeiro culpado; são taxados como o Clube dos Assassinos; perdem prestígio e reputação; e, eventualmente, descobrem quem está por trás do crime – cometendo, é óbvio, inúmeros deslizes no meio-tempo. O elenco jovem tem uma química inegável que nos faz querer saber como irão terminar no season finale, e são auxiliados por outros personagens que aparecem no enredo, como Janae (Jessica McLeod) e Maeve (Melissa Collazo), roubando os holofotes ao trazerem mais irreverência e rebeldia à produção.

Os aspectos técnicos não ousam para muito além das estruturas engessadas de iterações adolescentes similares – e parecem pegar páginas emprestadas de ‘Euphoria’ ou ‘Love, Victor’. A paleta de cores unilateral não condiz, nem em um nível mais simbólico, às ações dos protagonistas, preferindo estabilizar em um uso cansativo de azul e laranja para discernir passado e presente; a montagem e a fotografia, bem como a direção dos capítulos, trilha caminho idêntico – com destaque surpreendente ao piloto, que foge dos métodos com uma sutileza vista em outras obras comandadas por Jennifer Morrison, a diretora.

‘Um de Nós Está Mentindo’ pode ter seus equívocos e perder um pouco a mão com uma história intrincada em demasia, mas, ao impedir que as subtramas falem mais alto e focar nas engrenagens que movem o grupo de acusados, permite que fiquemos intrigados por uma aventura coesa e interessante.

Notícias

Cillian Murphy e Jack O’Connell interpretarão IRMÃOS em ‘Um Lugar Silencioso 3’

Em entrevista ao Collider, Jack O'Connell ('Pecadores') revelou novos...

Lea Michele retornará como Rachel Berry no reboot de ‘Glee’

De acordo com o Variety, Lea Michele ('Scream Queens')...
Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.