Crítica | Um Funeral em Família – Tyler Perry é Madea em mistura de Maria do Bairro e Zorra Total

Crítica | Um Funeral em Família – Tyler Perry é Madea em mistura de Maria do Bairro e Zorra Total

Nota:

O Professor Grotesco

Tyler Perry é um bom ator. Calma, antes que esta afirmação lhe cause desmaio, peço para que relembre de suas participações em obras nas quais foi dirigido por cineastas de excelência, vide J.J. Abrams (Star Trek), David Fincher (Garota Exemplar) e, mais recentemente, Adam McKay (Vice). Já quando o assunto são suas comédias (ou até mesmo seus dramas), a coisa muda de figura...

E não é dizer que os dois pilares da dramaturgia se apresentam de forma separada em suas obras – aqui em Um Funeral em Família, por exemplo, temos um pouco de cada, drama e comédia. O fato faz com que pareça estarmos assistindo a dois filmes diferentes, que nunca se encontram ou conectam. Se a profundidade de seus dramas se resume a encenações de novelas latinas (vide o sofrível Acrimônia, do ano passado); suas comédias não sabem o momento de parar, atirando para todos os lados sem qualquer timing e, o primordial, graça.

Bom, o fato é: alguém acha graça, já que Perry tem um público fiel cativo nos EUA, e continua a produzir seus longas ano após ano. Com a fotografia e estilão de telefilme, o cineasta (que também escreve seus roteiros) insiste no mais baixo denominador comum – e seus espectadores são o chamado “público médio”, consumidores não muito exigentes. A desculpa aqui é dar voz a um nicho, empoderando-o: o público negro, já que seus filmes são feitos por eles e para eles. E isso, definitivamente é louvável. O problema é que raramente Perry o faz de fato, apostando em estereótipos, piadas de mau gosto e baixo calão, e em mensagens pra lá de deturpadas.




Em Um Funeral em Família, Tyler Perry volta a interpretar sua personagem mais “célebre”, a idosa desbocada Madea. O diretor já vive a personagem nas telas desde 2002, quando começou a lançar suas apresentações teatrais em vídeo – textos estes que adaptou ao cinema na forma de seus filmes. Nas telonas, a primeira aparição data de 2005, com Diário de uma Louca – o único filme como Madea que não dirigiu -, num total de dez filmes no qual personificou o papel (o novo longa marca o décimo primeiro).

Com sua galeria de personagens idosos exóticos, é difícil não associar uma inspiração do cineasta em Eddie Murphy, que vem orquestrando este tipo de humor “disfarçado” desde Um Príncipe em Nova York (1988), aprimorado em O Professor Aloprado (1996). A diferença é que Perry dificilmente encontra o tom para o humor, e até mesmo suas piadas impróprias não são devidamente aplicadas. O humor incorreto e escrachado é ainda mais complicado, pois quando se erra, torna-se ofensivo. Exatamente o que ocorre com o diretor na maioria de seus trabalhos. A prova disso é a nova adição ao seu repertório de caricaturas, interpretado pelo próprio: o tio Heathrow – um inválido cadeirante, sem as duas pernas, os dentes e que fala através de uma máquina devido ao câncer na garganta. Um personagem assim fica na tênue linha do mau gosto, e Perry a atravessa com louvor.

Na trama, alguns parentes viajam para a celebração de aniversário de casamento de Anthony (Derek Morgan) e Vianne (Jen Harper). Mas o que era para ser um evento festivo, torna-se uma reunião fúnebre, já que o sujeito morre em circunstâncias suspeitas. Na realidade, como nos melhores folhetins mexicanos, o patriarca é flagrado com outra mulher na cama no momento do acidente fatal – e flagrado por ninguém menos que seu filho, casado, que igualmente estava cometendo adultério – e com a noiva de seu próprio irmão! Se cuida, Manoel Carlos!

Com Acrimônia, Perry entregou sua Maria do Bairro norte-americana. Com Um Funeral em Família, ele tempera sua Zorra Total dos “bons” e velhos tempos. Porém, mais impactante que a falta de bom senso, noção e humor no geral, é a cara de pau com que o diretor deseja passar seu discurso de inversão de valores. Meio aos tropeços, ele até dá o recado sobre o racismo policial em relação aos negros, mas quando tenta afirmar que a mulher forte é a que permanece ao lado do marido mesmo após as traições e abusos, é que percebemos o quão fora de toque com a realidade se encontra o cinema de Tyler Perry.


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