Crítica | Um Natal Cheio de Graça – Aposta Brasileira da Netflix Não Entrega o que o Título Promete


Aos poucos uma nova tradição começa a se desenhar no Natal dos brasileiros: todo fim de ano, além de diversos títulos natalinos trazidos especialmente para essa época do ano, a Netflix está lançando anualmente um filme com essa temática imerso na cultura nacional e com atores daqui. Isso tem ocorrido nos últimos anos, com filmes estrelados por Leandro Hassum em sequência (‘Tudo Bem No Natal Que Vem’ e ‘Amor Sem Medida’, sendo que este último chegou como um lançamento de fim de ano) e, neste 2022, estrelado pela mais nova estrela do humor nacional, Gkay, a plataforma apostou suas fichas em ‘Um Natal Cheio de Graça’, comédia natalina já disponível aos assinantes e que, desde sua chegada, figura entre os mais vistos no Top 10.

Carlinhos (Sérgio Malheiros) é um rapaz super ocupado que vive para o trabalho. Às vésperas do Natal, ele já tem tudo decidido: vai pedir a mão de sua namorada (Monique Alfradique) em casamento assim que chegar à casa. Só que ele não esperava era encontrá-la com outra mulher… De coração partido e confuso, ele sai correndo do prédio, mas dá de cara com a maluquete Graça (Gessica Kayane), que alega estar presa na cidade por ter perdido suas malas e, por isso, não poderá passar o Natal com sua família na Suíça. Conversa vai, conversa vem, os dois decidem por um plano: Graça fingirá ser a namorada de Carlinhos na reunião da família do rapaz durante as festas de fim de ano, de modo que, assim, ele não terá que dar muitas satisfações a todos, enquanto ela, por sua vez, terá com quem passar a data festiva. Mas os dois não esperavam que o encontro dessa família tradicional com a espevitada Graça fosse produzir marcas profundas em todos os familiares – especialmente em Graça e Carlinhos.

Em uma hora e quarenta e cinco de duração, ‘Um Natal Cheio de Graça’ é, literalmente, o cinema brasileiro tipo exportação. Ele tem um elenco nacional, que fala em português, e foi gravado no Rio, mas, tirando esses elementos, é o tipo de história que traz tantos elementos estrangeiros, que nós mesmos, brasileiros, ficamos com dificuldade de nos conectarmos com a proposta do longa. Por exemplo, na dita família rígida do protagonista, uma das “tradições de Natal” é simplesmente realizar uma partida de polo (aquele esporte de pessoas em cavalos, batendo em uma pequena bola na grama com uma espécie de bastão) – quer dizer, que família brasileira pratica polo como tradição do Natal? Outro exemplo: antes da ceia, familiares e convidados vão para o salão para dançar… valsa! Mais ainda: quando finalmente parece rolar um clima entre os protagonistas, Carlinhos vira e fala: nossa, nós paramos debaixo do visco, isso quer dizer alguma coisa… mas, cá entre nós, o que isso quer dizer aqui no Brasil? Absolutamente nada, porque esse negócio de beijar debaixo do visco faz sentido só lá no norte do planeta.

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Em ‘Um Natal Cheio de Graça’ o destaque é mesmo Gessica Kayane, que faz sua farofa rolar solta no filme de Pedro Antônio Paes. Agindo com naturalidade, Gkay transborda energia e simpatia em um núcleo de personagens engessados em brigas familiares e aparências. Dona das tiradas mais engraçadas nesta comédia, a atriz transita com facilidade entre o riso e o papo sério, e sinaliza que veio para conquistar as telonas tal como outros comediantes oriundos das redes sociais anteriormente o fizeram.

Um Natal Cheio de Graça’ é uma luxuosíssima produção que conta com grandes nomes do audiovisual, de Vera Fischer a Noemia Oliveira, de Flávia Reis a Cézar Maracujá (este, em dobradinha com Gkay na Netflix). Mas, apesar do título, o filme é sem graça.

Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.

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