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Crítica | ‘Uma Batalha Após a Outra’ é o MELHOR filme do ano!


Na última semana, o Festival do Rio, em parceria com a Warner, realizou uma sessão de “aquecimento” para dar ao público um gostinho do que esperar da edição deste ano. E não poderiam ter escolhido melhor, já que o Cine Odeon recebeu a primeira sessão de Uma Batalha Após a Outra no Brasil, uma obra-prima do diretor Paul Thomas Anderson, que já desponta como um dos francos favoritos às principais categorias na temporada de premiações.

Quando se fala de cinema, a qualidade importa tanto quanto o timing de lançamento. Existem casos de filmes espetaculares que acabaram não dialogando plenamente com o público por ter sido lançado “na época” errada. Por outro lado, já houve verdadeiras bombas que tiveram vida longa nas salas do mundo por terem chegado no “momento certo”. No caso de Uma Batalha Após a Outra, acontece o melhor dos dois mundos. É o melhor filme do ano e também chega num momento em que sua temática está em plena ebulição no mundo inteiro. E por falar de um tema de abrangência mundial, é muito improvável que não chame atenção nos quatro cantos do globo.



Na trama, Bob (Leonardo DiCaprio) e Perfidia (Teyana Taylor) são uma dupla de revolucionários se envolve em uma série de atentados pelos Estados Unidos, libertando imigrantes detidos e infernizando a vida de um governo militarizado que está voltado para promover o bem das elites e perpetuar sua gente no poder. No percurso, a dupla desenvolve uma relação e tem uma filha. O problema é que ocorre uma delação e a revolução é interceptada, com a prisão e morte dos membros do grupo. Pensando na segurança da bebê, Bob desaparece no mundo com a criança, sendo resguardado por uma rede de apoio dos membros restantes, levando apenas uma lista de códigos e um aparelho “de confiança” para identificar futuramente os membros da revolução.

Os anos se passam, a menina (Chase Infiniti) cresce sob tutela de Bob como uma adolescente brilhante, mas o rapaz vive à sombra de sua juventude revolucionária, preenchendo seus dias com paranoias e o consumo de drogas. Para complicar, um antigo membro da caça militar (Sean Penn) retorna para pôr um fim à linhagem da revolução, restando a Bob apelar aos antigos amigos para tentar salvar a menina. Só que ele não consegue mais lembrar dos códigos para contatá-los, o que dá início a 2h50 de pura ação e comédia, no filme mais frenético de 2025.

Sim, por mais surreal que pareça, dada a densidade da trama, Uma Batalha Após a Outra é uma comédia. Ao mesmo tempo em que aborda e promove discussões sobre imigração, o papel da mulher além da maternidade, como se formam revoluções, os pesos das escolhas da juventude, o papel absurdo ao qual as sociedades estão expostas ante governantes imbecis e infantis, e como os grupos das elites são extremamente danosos aos interesses populares, PTA lida com isso de forma absurdamente bem-humorada. Ele é capaz de construir cenas pesadíssimas e ainda assim arrancar uma gargalhada, seja ela pelo desconforto ou pela conclusão inesperada. E o mais fascinante é que a comédia constante casa perfeitamente com a ação eletrizante. É um equilíbrio perfeito que é amplificado por uma direção inspiradíssima de Thomas Anderson, que cria uma caçada digna dos antigos faroestes, mas numa roupagem mais moderna.

Existe uma sequência de tirar o fôlego, na qual quatro personagens estão em uma perseguição intensa, mas um deles está completamente perdido na situação. Para aumentar a tensão, PTA brinca com as curvas e relevos da própria estrada para esconder os personagens e dar aquela incerteza sobre quem chegará primeiro ao alvo. Mais do que isso, ele aposta numa montagem com closes nos rostos dos personagens correndo pelo mesmo percurso, e a iluminação valoriza perfeitamente as atuações desse elenco afiadíssimo. Você vê o desespero, a indiferença e a confusão estampadas nas caras dos personagens, enquanto eles pisam fundo no acelerador e tentam prever os próximos movimentos. É uma sequência fascinante! E ainda assim sobra um espaço para uns risinhos.

Nos últimos anos, Leonardo DiCaprio tem sido bastante criterioso na escolha de seus projetos. Se ele está num filme, pode confiar que será interessante, no mínimo. E aqui é puro brilhantismo do ator. Seu “Bob” lembra muito o Holland de Ryan Gosling em Dois Caras Legais (2016), mas trazendo mais nuances. Ele não é convencido, ele é atormentado pela sombra do que um dia já foi. Então, fugindo da dor de uma vida cotidiana, ele se afunda nas drogas para suportar a própria existência, enquanto aguarda pelo pior. No entanto, ele ama muito verdadeiramente a própria filha, sendo capaz de fazer tudo para protegê-la. Nesse processo de reencontrá-la, ele acaba revivendo um pouco dessa vida de revolução, mas percebe que está velho demais. Ou seja, nem mesmo os “Dias de Glória” são mais os mesmos.

Ainda que DiCaprio esteja perfeito no filme, quem rouba a cena mesmo é Sean Penn. Vou evitar falar muito de seu personagem para evitar revelações sobre a trama, mas ele é um militar condecorado, cuja vida perfeita é posta em risco quando um clubinho de elite ameaça expulsá-lo por conta de uma “pendência” do passado. Ele é como uma criança de 70 anos e 40 cm de bíceps. Mimado, sem noção e sem qualquer respeito pela vida alheia, ele mobiliza mundos e fundos para não perder seu espaço no time. O trabalho de Sean Penn é P-E-R-F-E-I-T-O ao compor um dos melhores personagens de sua carreira, senão o melhor.

Fechando o trio, Benicio Del Toro interpreta o Sensei Sergio, o mestre de artes marciais da filha de Bob, que secretamente é um agente infiltrado da revolução para manter a família protegida. A forma como ele transita pelos agentes da fronteira é simplesmente hilária. Ele mantém uma serenidade absurda em meio ao caos, revelando muito empenho do ator para passar o máximo de credibilidade a um personagem simplesmente excêntrico. Em toda cena que um dos três aparece, o público se vê incapaz de piscar. São atuações magnéticas, daquelas para serem lembradas por muitos anos.

Por fim, a forma como PTA usa as trilhas sonora e musical é espetacular. A playlist do filme dialoga perfeitamente com os personagens abordados, enquanto os temas intensificam a urgência da trama, junto a uma fotografia que aposta nas cores quentes e na mescla de planos-sequência com closes para criar algumas das melhores cenas de ação dos últimos anos, mostrando a versatilidade de Paul Thomas Anderson na hora de contar histórias.

Ao sair da sessão, a sensação foi de ter assistido um sucesso geracional, um clássico instantâneo que ainda vai dar muito o que falar não só por tratar de temas políticos, mas principalmente por ser uma obra espetacular. É o melhor filme do ano até aqui.

Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.
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