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Crítica | Uma das obras-primas do ano, ‘Mr. Scorsese’ é um retrato operístico sobre uma lenda viva [Mostra SP]


Minissérie exibida na 49ª Mostra de São Paulo.

Martin Scorsese não é apenas um cineasta. Ele é um emblema da sétima arte. Ao longo de sua expressiva carreira, o realizador deu vida a projetos tão aclamados pela crítica e pelo público que são considerados por inúmeras pessoas como alguns dos melhores do cinema – incluindo ‘Gangues de Nova York’, ‘A Última Tentação de Cristo’, ‘Os Bons Companheiros’ e ‘O Lobo de Wall Street’. Com uma visão única e um respeito inegável para com o ofício que abraçou desde sua juventude, Scorsese transforma questões universais e filosóficas em histórias dialogáveis e que servem como reflexo de si mesmo e das pessoas que passaram por sua vida.

Agora, o cineasta recebe uma belíssima homenagem com a série documental Mr. Scorsese, que teve uma exibição especial e na íntegra na 49ª Mostra de São Paulo, e já está disponível no catálogo da Apple TV. Através de cinco irretocáveis episódios, a atração mergulha sem pensar duas vezes na vida pessoal do realizador, explorando os cantos mais iluminados e mais sombrios de sua jornada como filho de imigrantes italianos, como amante do cinema, como diretor e, é claro, como homem. Singrando pelos íntimos altos e baixos de um cotidiano marcado por mudanças radicais em sua realidade, na indústria do show business e no planeta, tornando-se alvo de extremistas psicóticos e controvérsias que pincelavam os temas de seus projetos.



Martin sempre foi uma persona complexa, como a diretora, produtora e criadora da série Rebecca Miller deixa muito claro. Colocando Scorsese como protagonista de uma biografia profunda e recheada de emoção, Miller retorna aos primórdios da família Scorsese para arquitetar uma espécie de coming-of-age que nos deixa interessados e instigados desde os primeiros segundos e nos guia em um retrato inédito sobre um dos maiores cineastas de todos os tempos que se estende por quatro horas e meia sem, em momento algum, nos deixar cansados ou entediados. É claro que alguns espectadores podem ficar frustrados pelo fato de sua carreira mais atual ter sido deixada de lado em prol de uma belíssima pintura que foca em momentos decisivos, tanto pessoais quanto profissionais.

Miller encontra sucesso absoluto em, ao seguir o padrão de produções do gênero, remodelá-las para retirar, talvez, uma sisudez exagerada que obras documentais clamam e transformando o projeto em uma conversa natural e fluida não apenas com Scorsese, mas com uma variedade de amigos de longa data, colaboradores da indústria e admiradores de seu icônico trabalho. E, à medida que nomes como Robert De Niro, Jodie Foster, Irwin Winkler, Steven Spielberg, Leonardo DiCaprio e tantos outros falam de suas experiências como realizador, percebemos que os personagens e os longas criados pelo lendário Martin ressoam diretamente com a jornada que enfrentou e que continua enfrentando mesmo aos 82 anos.

Fosse através de ímpetos perfeccionistas, rixas com chefes de estúdio, descréditos constantes ou encarcerado no fundo do poço após se viciar em drogas, Scorsese se levantava com a ajuda de seus entes queridos toda vez que caía, às vezes aprendendo com os erros, às vezes precisando cair mais uma vez antes de entender o que fez. De qualquer maneira, a humildade do cineasta é trazida aos holofotes à medida que ele admite os erros e utiliza os percalços da vida para compor obras-primas que exploram o lado sombrio do ser humano e como todos nós possuímos demônios interiores que nos tornam propensos a explodir – como fez com Taxi Driver e em Touro Indomável.

Para garantir essa relação parassocial com Scorsese e com os incontáveis convidados que fornecem informações essenciais sobre o diretor, Miller se associa com a dinâmica e frenética montagem de David Bartner, que sabe como garantir o ritmo e até mesmo construir alguns ganchos para nos convencer a dar play no capítulo seguinte: afastando-se dos convencionalismos, Bartner abre espaço para um convite ao público, chamando-o para adentrar no efusivo universo de Scorsese e se encantar com o fato de sua vida ter sido pautada na mescla entre ficção e realidade, entre um exercício terapêutico de compreender o mundo ao seu redor e as consequências de uma ousadia exagerada que, por vezes, lhe rendeu duras críticas.

Trazendo comentários sobre o choque causado por títulos como Taxi Driver, ‘O Rei da Comédia’ e ‘A Última Tentação de Cristo’, e discorrendo acerca da intrínseca relação entre Martin e o show business, Mr. Scorsese se sagra como uma das melhores produções do ano, acompanhando o aclame que o realizador conquistou desde suas primeiras incursões na sétima arte até os dias de hoje. Rebecca Miller, de fato, compreende a essência de Scorsese ao, assim como ele próprio e suas minuciosas produções, construir uma série documental que soa tanto como um épico operístico quanto como uma dramédia social.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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