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Crítica | ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’ é a sequência que todos queríamos


Sexta-Feira Muito Louca é um dos filmes mais conhecidos e populares da Walt Disney Studios e, mesmo depois de duas décadas desde seu lançamento, continua sendo revisitado ou redescoberto – posando como um título que reitera seu impacto na cultura pop de maneira admirável. Não é surpresa, pois, que a onda de remakes e reboots tenha caído sobre o longa-metragem e, em poucos dias, os espectadores poderão ir ao cinema para conferir a antecipadíssima sequência ‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’, que traz Lindsay Lohan e Jamie Lee Curtis de volta a uma aventura apaixonante e muito divertida.

Partindo da premissa do filme original – que, por sua vez, funciona como uma adaptação livre do clássico estrelado por Jodie Foster -, a diretora Nisha Ganatra, que ganhou reconhecimento por seus trabalhos em produções como ‘Late Night’ e ‘Transparent’, apresenta uma narrativa que traz Tess (Curtis) e Anna Coleman (Lohan) em mais uma “troca de corpos” que não apenas as envolve, mas que se estende para uma nova geração. Afinal, acompanhando o amplo tempo que se passou desde a história anterior, Tess enfrenta os dilemas da terceira idade e tenta se provar útil para a filha, que, por sua vez, lida com o fato de ser uma mãe solteira que deixou seu sonho de se tornar uma estrela da música de lado para cuidar da jovem Harper Coleman (Julia Butters) e gerenciar sua carreira como assessora e produtora musical.



De maneira a homenagear ainda mais o clássico encabeçado por Mark Waters, Ganatra se alia ao roteiro de Jordan Weiss para apresentar uma terceira trama envolvendo Harper: a adolescente, ainda tentando descobrir seu lugar no mundo, é apaixonado por surfe e lida com a presença de uma aluna britânica chamada Lily (Sophia Hammons), que se torna sua nêmesis. Porém, a vida da garota vira de cabeça para baixo quando Anna se apaixona por Eric (Manny Jacinto), pai de Lily, e os dois resolvem se casar e dar início a um capítulo novo – e que transforma as jovens em meias-irmãs que se detestam. E isso não é tudo: em mais uma profética “renovação”, por assim dizer, as quatro trocam de corpos e dão início a uma corrida para se colocarem uma no lugar da outra e entender que o conceito de família é muito mais complexo do que imaginamos.

Dizer que o filme perde pontos por repetir a fórmula do original é patético – porque, desde o princípio, sabemos que a sequência faria isso. Todavia, Ganatra, por mais que pegue páginas emprestadas de Waters, deixa sua marca ao modernizar tropos que já foram utilizados inúmeras vezes no cenário do entretenimento. Temos três gerações diferentes que se aglutinam em um constante coming-of-age e que, de maneira circular e muito bem delineada, passam por transformações muito íntimas que recuperam uma harmonia perdida – e que trazem as conhecidas mensagens de bonança da Casa Mouse para uma ótica leve, meiga e satisfatória do começo ao fim.

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As adições ao elenco estão formidáveis, com óbvio destaque a Butters e Hammons, que trabalham muito bem em cena e trazem um frescor performático que faz menções às incursões de 2003 e que apresentam uma contemporaneidade marcante e condizente à Gen-Z. Jacinto, conhecido por estrelar a comédia ‘The Good Place’, se desvencilha do papel que definiu sua carreira e transforma-se em um inesperado galã que domina as cenas em um magnetismo inescapável e que parece se apoiar na atuação de Mark Harmon em Sexta-Feira Muito Louca (que, inclusive, retorna como Ryan, marido de Tess).

Mas o destaque, mais uma vez, destina-se às atuações irretocáveis e aplaudíveis das nossas amadas protagonistas. Lohan, que firmou parceria com a Netflix e vinha trilhando seu comeback ao cenário do entretenimento passo a passo, mostra que ainda está em seu auge artístico ao retornar de maneira gloriosa como Anna, mantendo resquícios da rebelde personalidade da outrora adolescente em sua faceta como mãe, empresária e mulher independente – e que assume o lugar da mãe na complexa relação com Harper (a qual passa a interpretar quando a troca de corpos acontece). Curtis, por sua vez, faz um espetáculo à parte não só como Tess, mas entregando-se de corpo e alma ao viver Lily, além de reiterar-se como uma das maiores atrizes da história do cinema. Quando juntas, a dupla cria mágica, navegando por uma comédia física on point e hilária.

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Ganatra não só toma as rédeas do projeto com comprometimento e abrindo espaço para que suas estrelas brilhem, como se beneficia do status inegável da obra predecessora e de sua expansiva popularidade. A diretora promove incursões que nos levam de volta ao passado, convidando-nos a um túnel do tempo nostálgico que se transforma em um inebriante e honesto mergulho nas atribulações da vida e das pessoas que passam por ela. E é claro que, para corroborar o intuito de uma produção tão franca quanto essa, easter eggs são espalhados pela estrutura técnica e artística da produção, seja na trilha sonora assinada por Amie Doherty, seja na fotografia suburbana estilizada por Matthew Clark.

‘Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda’ é a sequência que não sabíamos de que precisávamos, mas que todos queríamos há mais de vinte anos. Cada elemento do longa-metragem é tratado com uma preciosidade apaixonante, garantindo uma ponta entre passado e presente que é construída com esmero e encanto.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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