Tadeu Aguiar é um dos diretores de teatro mais prestigiados da atualidade e, desde sua estreia como realizador em 2011, eternizou uma carreira bastante prolífica que incluiu ótimas produções como ‘Beetlejuice’, ‘Uma Babá Quase Perfeita’ e ‘Querido Evan Hansen’. Em 2025, Aguiar comandou o esquecível musical ‘Chatô e os Diários Associados’, apenas para retornar pouco depois com a estreia de uma das melhores e mais engraçadas e autocríticas peças do ano – a adaptação brasileira de ‘O Casal Mais Sexy da América’, em cartaz no Teatro Liberdade, em São Paulo.
Assinado por Ken Levine e chegando pela primeira vez aos palcos nacionais, a trama funciona como uma exploração metalinguística do show business como objeto sociológico – em que o ápice e a decadência do estrelato, bem como o ônus e o bônus da nostalgia, tornam-se personagens principais através de dois protagonistas complexos, adoráveis e sedutores cada qual à sua maneira. Através de breves noventa minutos, o roteiro disseca temáticas que permanecem como um vício inescapável na era do espetáculo e do entretenimento, como etarismo, igualdade de gênero e sexo, desenrolando-se através de indesculpáveis e verborrágicos diálogos que são imortalizados pelo poder incomparável de Vera Fischer e Leonardo Franco, explodindo em uma química apaixonante e comprometidos o suficiente para ofuscar os breves deslizes técnicos que se escondem em meio a uma estonteante e ostensiva Nova York.
A trama apresenta Fischer como Susan White, uma atriz outrora prestigiada e famosa que participou de uma das séries mais populares da televisão norte-americana e que, agora, é forçada a uma espécie de anonimato para a nova geração de espectadores. Hospedando-se no Hotel Syracuse para o funeral de um de seus colegas de profissão, ela recebe a visita de Robert McAllister (Franco), coprotagonista da mesma série em que participou e com quem dividiu as telinhas e eternizou o status de “Casal Mais Sexy da América”. O reencontro de amigos de longa data, ocorrido duas décadas e meia desde o series finale, reacende ressentimentos, paixões e traumas que ficaram às escondidas por muito tempo, lançando luz a problemáticas que existem há décadas na indústria do entretenimento e que são internalizadas por aqueles que as enfrentam – desde a dificuldade em se conseguir papéis de destaque na terceira idade até abusos sexuais que foram ocultados da vista de todos.
A princípio, a construção de ambos os personagens mergulha em uma reverência emulativa à Old Hollywood, seja nos figurinos assinados por Ney Madeira e Dani Vidal, seja na cenografia arquitetada por Natália Lana. Porém, os solilóquios e os desabafos que tomam conta do palco transformam-se em um combate bélico que não precisa de nada além da presença formidável de dois performers fabulosos e que se transformam nas personas que encarnam – com uma química que apenas Fischer e Franco poderiam desfrutar nas cenas. Não é surpresa que Susan e Robert comecem a digladiar por sentimentos reprimidos e por frustrações que nunca foram compartilhadas, transformando o reencontro de velhos amigos em uma espécie de sessão terapêutica disruptiva que não nos deixar piscar sequer um momento.
Como já mencionado alguns parágrafos acima, o destaque vai para a verborragia do roteiro, que não respira em momento algum ao mergulhar em uma frenética narrativa tour-de-force que coloca os protagonistas em confronto com seus próprios demônios, quebrando tabus necessários e que merecem espaço de diálogo e discussão. A dosagem entre drama e comédia, construída com maestria por Aguiar em um de seus melhores trabalhos da década, é auxiliada pela presença pontual de Vitor Thiré como o bellboy millenial que sequer tem noção do impacto que a série estrelada por Susan e Robert fez à época de exibição – percebendo sua ignorância e tentando compreender um período de que não fez parte e que lhe soa quase intangível.
A peça não é livre de equívocos, ainda que sejam pontuais: por vezes, o ritmo imparável da produção nos deixa cansados, mas a entrega meticulosa dos atores é o suficiente para varrer os deslizes e nos encantar com uma obra que esconde críticas importantes em meio a uma despojada estruturação – e que é acompanhada de um apreço visual cortesia não apenas de Aguiar, como da iluminação certeira e sinestésica de Sergio Martins. E, para o bem ou para o mal, a curta duração da obra nos faz ansiar por mais.
‘O Casal Mais Sexy da América’ sagra-se como uma das melhores investidas em prosa do circuito teatral de 2025 e se beneficia do impressionante exercício criativo e performático e Fischer e Franco – transformando a obra em um poderoso estudo de personagens que merece nossa total atenção.
