A verdade é uma das coisas mais difíceis de ser ouvida. Muitas pessoas passam a vida inteira mentindo para si mesmas, aceitando mentiras, permitindo que situações impensáveis permaneçam tão somente para não terem que sair de suas zonas de conforto, para não terem que lidar com uma verdade tão pesada que as faria obrigatoriamente mudar suas vidas. É por isso que em alguns lares a verdade é colocada embaixo do tapete, e isso aconteceu com muita frequência durante a Alemanha nazista. Mas houve um rapaz, de apenas 17 anos, que lutou contra esse comodismo nacional, e a história dele chegou essa semana aos cinemas brasileiros através do filme ‘Verdade & Traição’.

Helmuth Hübener (Ewan Horrocks) é um jovem com muito talento para as letras e muita sensibilidade com seu entorno. Junto com seus três melhores amigos, Salomon (Nye Occomore), Rudi (Daf Thomas) e Karl-Heinz (Ferdinand McKay) eles vivem o que é possível de se viver sendo adolescentes na Alemanha nazista. Até que, um dia, Salomon, que é judeu, é levado pela polícia, e eles nunca mais o veem. Isso mexe demais com Helmuth, que começa a questionar o nacionalismo cego da população e o direcionamento da política nazista do país. Então, quando consegue um emprego como redator em um jornal, Helmuth passa a confeccionar panfletos anônimos no intuito de conscientizar a população sobre as atrocidades que vinham ocorrendo, afinal, alguém precisava falar a verdade para a população.
Com pouco mais de duas horas de duração, a extensão do filme assusta de início, mas, depois de entendermos que seu formato original era de uma minissérie e que fora compactado no formato longa-metragem, não só as duas horas passam a fazer sentido como também surpreende a boa montagem que ficou, no final das contas.
Nas primeiras cenas, ‘Verdade & Traição’ lembra bastante a energia de ‘Sociedade dos Poetas Mortos’: um grupo de rapazes que caminham entre a inocência e o intelectualismo, entre a rebeldia e a liberdade, entre a tirania e a revolução. O diretor Matt Whitaker faz uma boa transição atmosférica de seu longa, iniciando com cores mais claras, que reforçam a ideia de juventude em florescimento dos quatro amigos e, aos poucos, a luz vai desaparecendo das cenas, a medida em que o protagonista vai se encorajando na resistência. Também houve um bom trabalho com o elenco, que permanece o mesmo, de modo que no início os quatro rapazes possuem aquele frescor juvenil de propaganda de perfume, e, aos poucos, também esse brilho vai se esvaindo com os horrores que a consciência da verdade vai acontecendo.

Não é de se surpreender, claro, que ‘Verdade & Traição’ é baseado em eventos reais, e que esses quatro personagens cuja história gira em torno realmente existiram, e resistiram ao regime nazista a seu modo. Em determinado momento, Helmuth diz, citando um intelectual, que mais perigoso que armas, são as palavras, e que cada um luta com o que tem. Ou algo assim. E é a partir daí que ele, que é bom de escrever, começa a redigir seus panfletos para conscientizar a população. Talvez a coisa não tenha acontecido assim, mas o bom roteiro de Matt Whitaker e Ethan Vincent faz a gente acreditar nesse menino e torcer pelo fim da guerra, mesmo a gente já sabendo quando ela terminaria.
‘Verdade & Traição’ surpreende em muitos aspectos, mas o principal deles é o de pensar que essa história não é conhecida – o que, de certa maneira, reforça a própria mensagem do filme, que é o perigo da narrativa única na hora de moldar os pensamentos de uma população. Imaginar que um rapaz de dezessete anos usou o que tinha para peitar um dos maiores tiranos da humanidade é ao mesmo tempo inspirador e amedrontador. Mas ainda bem que, em tempos sombrios, podemos contar com a juventude.


