Crítica | ‘Versace: American Crime Story’ desacelera, mas o episódio não perde o brilho

Crítica | ‘Versace: American Crime Story’ desacelera, mas o episódio não perde o brilho


Nota:


Embora uma nova era estivesse sendo inaugurada, com coquetéis que prolongavam a expectativa de vida de portadores do vírus HIV, a década de 90 trouxe vários fragmentos do sofrimento vivido pela comunidade gay no período predecessor. Com mudanças na dinâmica social, a época de tons coloridos e jeans surrados da Levi’s foi também a ruptura com um conceito de identidade padronizado. Gianni Versace deu o passo ousado, em uma emblemática entrevista à revista The Advocate, expondo sua sexualidade para o mundo, de maneira madura e objetiva. No quinto episódio da segunda temporada de American Crime Story, Ryan Murphy paralisa o desenvolvimento da narrativa para trazer esse pequeno grande detalhe, mas compensa ao fazer um paralelo real que apresenta dois viés distintos de uma mesma verdade.

Com muitos estigmas e paradigmas sociais, se assumir gay nos anos 90 não era tão menos complicado como no passado. Cercada por uma sociedade impregnada com diversos conceitos, essa comunidade driblou preconceitos, canalizou todos os seus esforços pelo respeito mútuo e viu muitos dos seus sofrer com o árduo instante revelador – que poderia mudar o resto de suas vidas mediante o contexto vigente. Contraindo todas essas variáveis incertas, inclusive a determinação de sua própria irmã, Versace assume de vez seu papel vanguardista artística e socialmente, na emblemática entrevista que fez de sua biografia a isca para uma novidade muito maior. Todos esses atributos se encontram no episódio ‘Don’t Ask, Don’t Tell’ (Não Pergunte, Não Diga – em tradução livre), uma clara alusão à (falta de) política pública do presidente Bill Clinton, que proibia qualquer manifestação sugestiva de homossexuais dentro da força militar. Ser gay e militar era ok. Desde que ninguém soubesse.

De maneira pessoal, Ryan Murphy faz as vezes de seu filme The Normal Heart, nos levando um pouco mais a um passado que de fato é mais histórico do que biográfico. Mostrando pouco sobre as motivações de Andrew Cunanan, o capítulo mais recente se apropria da revelação pública de Versace, fazendo um contraste com a emblemática entrevista de Jeff Trail ao programa 48 Horas. Na ocasião, a primeira futura vítima do serial killer falou sobre a política Don’t Ask, Don’t Tell do governo, protegendo seu rosto, oferecendo apenas uma silhueta de suas feições. Sem sua identidade, só sabíamos da injusta e velada opressão aos militares gays nos idos de 1993. O material foi ainda mais vanguardista que Versace. Impressionou as audiências, mas pouco mudou. Dois anos depois, a voz que dá nome às estampas mais hipnotizantes falou. E tudo começou a se transformar.


Aproveite para assistir:


A ruptura com o silêncio sobre sua sexualidade tem tudo a ver com a imortalidade do estilista. De maneira sutil e simbólica percebemos essa máxima, ao vê-lo enfrentar os perigos de perder todo o seu prestígio, apenas por uma escolha de vida bem particular. E neste contraste entre o anúncio influente e a revelação anônima, a narrativa não linear nos confunde um pouco com as repentinas e excessivas mudanças de datas. Mais do que antes, voltamos ao passado de maneira nada cronológica e vemos pouco daquela exuberância que nos encantou no começo. Mas não é que Murphy tenha se distraído. Como um produtor que sempre mescla a arte com a construção social, ele oferece seu toque denunciante no meio da narrativa, colocando em pausa a trama que tecia o imaginário e a psique do assassino até sua vítima final.

E embora este episódio não seja tão intenso como os anteriores, The Assassination of Gianni Versace não perde o seu brilho, tão pouco o seu vigor. Pode até cansar aquele telespectador mais ansioso, mas consegue se manter pela apuração dos fatos reais, transportando a audiência para um período que está diretamente vinculado à própria juventude de Ryan Murphy. Com ainda mais quatro episódios por vir e todas as mortes já anunciadas, a expectativa é que voltemos todos os olhos para o suntuoso universo dos Versace, unindo as pontas apresentadas nos capítulos três e quatro. Aguardando ansiosamente por isso.


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