Crítica | ‘Versace: American Crime Story’: Murphy desvenda o assassino em episódio simbólico

Crítica | ‘Versace: American Crime Story’: Murphy desvenda o assassino em episódio simbólico

Nota:


Um amor não correspondido dói a alma. Traz a sensação de abandono, de desimportância. É sinônimo de solidão, de desamparo. Para alguns, é o esquecimento absoluto. No caso de Andrew Cunanan, é o início do fim. E se você não esperava ver mais uma nova camada do complexo personagem ser revelada, Ryan Murphy te prova que é possível ir ainda mais além. No sexto episódio de The Assassination of Gianni Versace: American Crime Story, as linhas finais que compõem a complexa trama que reduziu-se à morte de uma das figuras mais emblemáticas da cultura POP alinhavam o clímax de uma jornada doentia, iniciada pela dor do não.

O que sabíamos de Cunanan era seu voraz e repentino apetite pela morte. Aparentemente, tudo era tão complexo que chegou a ser evasivo. Com poucas informações e um histórico um tanto turvo, ele foi aquele tipo de assassino que poderia ter sido um simples anônimo, se não fosse o sobrenome Versace manchado de sangue. Mas Murphy desafiou os céticos e foi no âmago da mente criminosa de um jovem que poderia muito bem ter ficado de fora das estatísticas da polícia norte-americana.

Partindo dos escritos da jornalista Maureen Orth, o criador percorreu a sombria rota do assassino, que o levou a lugares como São Francisco, Minnesota, Chicago, alcançando a tropical de Miami. No mais novo capítulo, entendemos a profundidade da solidão do personagem, que viveu à margem, a espera de um amor jamais correspondido. E não me refiro a David, o talentoso arquiteto. Aqui, o vazio origina-se do seio familiar. Vivendo sob o prisma de uma família desestruturada, sua vida foi um grito de socorro de atenção, jamais ouvido por sua mãe. Aleatória ao filho que a cercava, ela parece ser a raiz dos devaneios de Andrew. O desejo pelo poder, pela validação e por títulos de importância – muito mais do que pelo dinheiro – a impediram de enxergar seu filho no estado máximo de fragilidade. E como herança, o jovem dissimulado criou um universo imaginário, a versão de si mesmo que ele jamais conseguiu ser, mas que sua mãe sempre idealizou.

E neste contexto onde os fragmentos finais do personagem – interpretado lindamente por Darren Criss – são mostrados, conhecemos uma nova figura, Norman, que abraça suas falhas, as aceita e oferece um carinho que talvez ele jamais tenha recebido em toda sua vida. Mas vinculado à sensação de poder absoluto, julgando que ela atrairia um amor correspondido, ele rejeita o convite e cai em uma espiral que finalmente nos leva à motivação original que puxou o gatilho daquela arma roubada. Em meio a uma bela paisagem da região mais nobre de San Diego, ele evidencia todos os seus traumas e inicia o seu fim sem sequer perceber.

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Nessa trajetória, um belo devaneio envolvendo o estilista permeia a narrativa de Andrew, anunciando também que estamos mais perto daquele clímax que desde o primeiro episódio ansiamos. Em uma espécie de monólogo, onde Versace aparenta estar anestesiado, fazendo ajustes robóticos em um terno de alfaiataria, o futuro assassino se entrega em seu discurso mais honesto. Um “homem nada”, é o que ele se tornou ao “amar demais” aqueles que o rodeavam. E dentro dessa epifania, regada a uma fotografia hipnotizante que une as sombras com o vermelho sangue, Murphy introduz adiantadamente o próximo episódio, que deve nos levar de volta ao suntuoso universo dos Versace, culminando a complexa mente desfalecida de Cunanan, com o fôlego de vida renovado de um artista que esteve frente a frente com vírus HIV.

E neste episódio simbólico e reflexivo, The Assassination of Gianni Versace nos faz compreender em sua totalidade aquilo que parecia ser impossível. Usando sua expertise como alguém que testemunhou de perto o auge do estilista nos 80 e se chocou com a morte como um membro do movimento da diversidade sexual, Ryan Murphy reconta a história mais especulada dos anos 90, pontuando fatos que assemelham-se, mais do que qualquer relato policial tardio, ao que se passava na mente do assassino. Usando o contexto social que ele testemunhou ao seu favor, ele nos entrega a história necessária para chegarmos àquele famigerado fim, estampado nas rústicas escadas ensanguentadas da casa de Versace.



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