Crítica | 'Versace: American Crime Story': Episódio visceral revela a fragilidade de uma mente demoníaca

Crítica | 'Versace: American Crime Story': Episódio visceral revela a fragilidade de uma mente demoníaca

Nota:

Andrew Cunanan foi um assassino brutal. Sem pudor, usou alguns dos mecanismos mais sádicos para tirar e constranger a vida de suas vítimas. E ‘The Assassination of Gianni Versace’ abriu as glamourosas cortinas com a assinatura do estilista, para nos apresentar aos bastidores da fatídica morte que cada vez mais se consolida como aquela que marca o ápice de uma mente drasticamente desestruturada. Em seu quarto episódio, intitulado Feline Intuition (Intuição Felina, em tradução livre), percorremos os passos rasteiros do personagem, novamente pela ótica solitária e confusa extraída da brilhante atuação de Darren Criss.

Talvez entender a morte de Gianni Versace não se restrinja apenas aos perímetros da ensolarada e colorida Miami. Talvez isso seria extremamente evasivo. A dimensão deste crime, que possui um sombrio rastro recente de acontecimentos semelhantes, está intimamente ligada ao perfil psicótico de seu autor. Complexo e até hoje incompreensível, ele se desenvolve para além de um desejo sadista pela sanguinolência. Confuso e remido por um sentimento de abandono de um amor jamais correspondido, Cunanan ganha uma nova camada, que evidencia a fragilidade de um psicopata que - possivelmente - é fruto de uma obscura jornada de agressão emocional e psicológica.

Com tendências possessivas, aprendemos no novo capítulo qual teria sido a genuína motivação original. Traçando suas pisaduras em um passado ainda mais antigo, novamente perdemos os irmãos Versace de vista, apenas para compreendermos quais caminhos nos levaram àquele trágico episódio, que ensanguentou as curtas escadas do casarão provençal do artista e transformou sua morte em um espetáculo midiático - aos moldes de O.J. Simpson. A extensão do hiato da narrativa principal é justificável. Embora sintamos falta do brilho ostensivo que a presença de Edgar Ramirez e Penélope Cruz naturalmente traz à trama, a possível raiz de todos os problemas é apresentada aqui. O desejo pelo estrelato através de famosa “publicidade ruim” ganha novos significados. Descobrimos que o amor doentio não correspondido é a fonte que abastece o ego de Cunanan, que viu em Versace a consumação de seu famigerado e repentino sucesso.



Inicialmente, tudo é fruto de uma esporádica e arquitetada explosão de ciúmes. A sucessão de crimes a partir da morte de David Madson (interpretado por Cody Fern) é um reflexo da fusão emocional e mental de uma figura problemática. Com o fracasso de seu plano inicial, o desejo abrupto e repentino de matar se auto justifica como a ferramenta mais correta de proteção. Começamos a compreender onde Versace entra na narrativa particular de Cunanan, que viu suas motivações transformarem à medida que suas mãos se mancham de sangue. Com o fim mortal de seu relacionamento com o carismático e correto Madson, Andrew começa a descobrir os eufóricos efeitos químicos da adrenalina de quem puxa o gatilho e assiste o outro sofrer. Com esta nova trilha se firmando, entendemos também a inversão dos fatos.

A alteração da ordem cronológica iniciada pelo fim, se revela como uma técnica pontual adotada por Ryan Murphy. Diante da morte de Versace, contemplamos apenas as falhas policiais e a superexposição da família italiana. Sabemos que Andrew se suicida pouco depois. Sabemos também que o glamour do ouro amarelo se suja com as marcas de sangue, todas muito bem fotografadas e capturadas pela sedenta imprensa. O que não sabemos é como chegamos até aqui. A reconstrução dos fatos primários nos ajuda a dimensionar o quão específica foi a escolha de Gianni por parte do assassino. O quão nada aleatório temos ali.

Ao nos aprofundarmos na psique de Cunanan, encontramos resquícios de sua fragilidade, em um roteiro absolutamente desenhado para Darren Criss crescer. Seu personagem - tão protagonista como a figura título da segunda temporada - é elevado a novas potências, ampliando o raio de seu comportamento doentio. Por trás dos olhos fatais que se revelam em lentes de aumento, percebemos fragmentos da dor da solidão. Não sabemos se ele é fruto de seu meio. Mas aprendemos que a imortalizada morte de Versace, que por si só se tornou um elemento crucial da cultura POP, de fato é.

No melhor episódio até o momento, um Darren Visceral se revela diante das audiências, evidenciando sua essência em busca da fama, como fruto da repentina ascensão que seus crimes primários lhe renderam. Anteriormente em fuga, ele passa a se descobrir como um assassino faminto, que se alimenta do prestígio alheio para construir sua rota em direção àquela morte que lhe consagrou como um ilustre artefato empoeirado da hipnotizante cultura POP.

 

 





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